LIBERDADE EM CRISTO, SENTIMENTO DE CULPA E CONVENCIMENTO DO PECADO – PARTE 1

Leandro Dorneles


Hoje, meditando, lembrei-me de há muitos (mas muitos) anos uma conhecida, ao saber da minha fé, indagou-me sobre o que Deus achava de algumas questões da vida - e que eu sabia, falava dela. Perguntou-me se certas coisas eram “certas” ou “erradas” diante de Deus.

Constantemente sou arguido com esse tipo de questionamento, sobre o que (diante de Deus ou, como dizem, “segundo a tua religião”) pode ou não pode, é certo e errado, proibido e permitido, pecado ou não pecado. Como qualquer pessoa sensata deve imaginar, não são perguntas fáceis de responder e a responsabilidade que recai sobre aquele que as responde é tamanha que, sinceramente, preferiria não respondê-las.

Na verdade, há um equívoco nestas perguntas, provocado por dogmas doutrinários que nada tem a ver com os ensinamentos de Cristo. Explico, fazendo um paralelo com a lógica jurídica:

No direito privado tudo que não é proibido por lei é permitido. No direito público, só é lícito o que é permitido em lei, observando os meios e formas por ela estabelecidos (princípio da legalidade). E na Bíblia? Seguimos os mesmos princípios?

Antes de prosseguir é necessário que o leitor entenda que, na doutrina cristã, a interpretação das Escrituras Sagradas tem como base principiológica o Novo Testamento, ou seja, a Nova Aliança de Deus com os homens através de Cristo (Lei da Graça) e não de Moisés (Lei do Mandamento). Por isso, a leitura do Antigo Testamento deve ser SEMPRE interpretada com base no Novo Testamento. Não é objetivo, porém, deste artigo discorrer sobre isso no momento.

O apóstolo Paulo elenca alguns princípios para administrarmos certas questões morais/sociais/políticas/filosóficas/espirituais em nosso dia-a-dia, não se esgotando neles tudo que o precisamos saber sobre o tema.

Uma parte diz respeito aos atos da vida cristã, outra, à forma como Deus trata tais questões. Para não tornar a leitura deveras cansativa, o presente artigo tratará apenas da primeira parte.

Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma. (1 Coríntios 6:12)

Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam. (1 Coríntios 10:23)

Sobre a liberdade da vida cristã, Paulo reforça tal princípio ao menos quatro vezes nos dois versículos supracitados: “todas as coisas me são lícitas”.

Significa que na vida cristã não resumimos os conflitos morais, sociais e espirituais como certo ou errado, pode ou não pode, pecado ou não pecado. É importante compreender que a Bíblia (lembre, sempre sob a égide do Novo Testamento) não é um livro de regras onde a pessoa que decide andar no caminho da fé em Cristo deve consultar para saber o que, de agora em diante, ela pode ou não pode fazer. E muitas pessoas desistem de conhecer a fé cristã exatamente por acreditar que, ao recebê-la receberá um manual repleto de permissões e proibições para torná-lo “santo”. Isso é totalmente antagônico aos ensinamentos de Cristo e quase me arrisco e chamar tal entendimento de heresia, senão um equívoco teológico, no mínimo. Infelizmente este é um comportamento ensinado em muitos lugares, por pessoas sem discernimento da fé cristã. Mas agora, caro leitor, você já sabe que não é bem assim.

A partir daqui é necessário paciência na leitura, que pode escandalizar alguns irmãos, a princípio, mas posso afirmar que se trata de uma reação natural, instantânea, porém, passageira, na medida em que você continuar lendo.

Significa, então, que um cristão pode fazer qualquer coisa? Sim. Pode beber? Sim. Pode fumar? Sim. Pode frequentar boates, bares e outros lugares “não cristãos” (sic)? Sim. Pode ouvir qualquer tipo de música, frequentar qualquer tipo de festa, andar com qualquer grupo de pessoas, vestir qualquer tipo de roupa, usar tatuagens, piercings, trabalhar em qualquer tipo de atividade, participar de outras religiões ou celebrações religiosas, comungar de diversas ideologias políticas e filosóficas, assistir qualquer tipo de filme ou programação televisiva, falar palavrões e fazer piadas maliciosas? Sim! Tudo é lícito!

Passado o primeiro parágrafo polêmico (ao menos para alguns), continuemos o exame dos princípios anunciados por Paulo.

O apóstolo, nos dois versículos citados traz, além da licitude dos atos da vida cristã, três outros parâmetros que devem ser conjuntamente observados. São eles: conveniência, domínio próprio e edificação (confira os versículos novamente).

1. Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm.

A conveniência está intimamente ligada à ocasião, ao testemunho, à aparência do mal e à mensagem que passamos aos que nos rodeiam.

Por questões pedagógicas, utilizarei repetitivamente o exemplo do consumo de bebidas alcoólicas para ilustrar algumas situações. O exemplo escolhido, no entanto, é meramente casual, utilizado para facilitar o entendimento. Poderia substituir por diversos outros atos/fatos que trazem dúvidas a respeito da liberdade cristã.

Sou cristão. Eu posso beber? Sim, eu posso. Não há um versículo bíblico que declare pecado o ato de beber. Deus reprova a embriaguês, por conta de todas as consequências que dela podem advir. Se o ato de beber, porém, levar a um comportamento de embriaguês, deve-se considerar se ainda assim é conveniente beber.

Vejamos alguns exemplos:

No capítulo 9 de Gênesis Noé, passado o dilúvio se embriaga, e embriagando-se fica nu diante de seus filhos, um ato de extrema vergonha para sua cultura moral familiar. Um dos filhos contempla a sua nudez ao invés de virar o rosto e cobrir o pai em sua humilhação, como o fez seus irmãos, e por isso sua descendência é amaldiçoada. Pela embriaguês de Noé todos sofreram.

No capítulo 31 de Provérbios a mãe de um rei o adverte sobre os perigos da “bebida forte” e como a embriaguês perverte o juízo e o direito. E pensando no perigo da embriaguês ela lhe ensina que não é conveniente aos reis e aos príncipes beberem, e que a embriaguês é comportamento típico dos pobres e amargurados de espírito que bebem para tentar esquecer quão miseráveis suas vidas são.

No capítulo 20 de Provérbios o escritor adverte que “O vinho é escarnecedor, a bebida forte alvoroçadora; e todo aquele que neles errar nunca será sábio” (versículo 1). Também diz que aquele que anda com os beberrões e comilões acabará na pobreza (versículos 20 e 21).

Nesta parte, concluímos que a Palavra de Deus ensina que a liberdade da vida cristã não é medida pela licitude, mas pela conveniência dos atos praticados, ou seja, a consequência de tais atos.

A primeira peneira, portanto, a ser utilizada na licitude de nossos atos é a da conveniência.

2. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma.

A segunda peneira está ligada a motivação dos atos praticados e a dependência que tais atos podem causar.

Jesus ensina que “aquele que pratica o pecado se torna escravo do pecado”. Em outras palavras, está dizendo que o pecado vicia. Da mesma forma, muitos atos que, a priori, não constituem um pecado, podem se tornar extremamente danosos quando deles se perde o controle, passando a se tornar um vício de comportamento.

Novamente, usando o exemplo da bebida, aquele que perde o domínio da bebida se tornará escravo dela. Em muitos casos, a peneira da conveniência evita esse resultado, não permitindo sequer iniciar o ato.

3. Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam.

A terceira peneira da licitude é a edificação.

A edificação diz respeito à qualidade do resultado do ato praticado e sua repercussão na vida do praticante e daqueles diretamente relacionados a ele. Num significado mais profundo, ela representa o seu amor à vida e que de bom se agrega a ela.

Trazendo novamente o exemplo da bebida, pensemos na seguinte situação (inclusive real e corriqueira):

Você não tem problemas com bebida. Você tem domínio próprio, bebe socialmente, não dirige se estiver bebendo e não se embriaga nem dá escândalos ou faz coisas das quais não faria se não estivesse bebendo. Mas você tem um(a) amigo(a), parente ou familiar que tem problemas com a bebida, que tem dependência pela bebida alcoólica, que bebendo traz problemas para si (saúde) e para outros (emprego, relacionamentos, etc.). Um dia ele decide parar de beber e começa um processo (sozinho ou acompanhado) de libertação/reabilitação. Está há duas semanas sem beber. Sente-se tentado, mas consegue evitar se colocar em situações propícias à bebida. Você, nada sabendo, o convida para almoçar em sua casa. Ao assentar-se a mesa, você coloca uma garrafa de vinho, daquele que você ouve dizer que uma taça faz bem até para o coração. Ele olha para o vinho como um homem olha para uma mulher formosa, mas maliciosa, e rapidamente desvia o olhar. Você oferece uma taça. Ele agradece, mas recusa, explicando discretamente que está parando de beber. Você quase se sente ofendido e diz que “uma taça” não fará mal algum, pelo contrário, fará bem até para a saúde. Ele, constrangido, resiste e recusa novamente. Você insiste mais uma vez e agora com o argumento de que a bebida é uma convenção social e que não beber ao menos socialmente é coisa de gente retrógrada, conservadora e antissocial. Ele percebe o seu desconforto e resolve aceitar “apenas uma taça”, que no final vira duas ou três. No caminho para casa ele passa naquele velho e conhecido bar e resolve tomar mais uma ou duas taças. No outro dia você passa de carro e visualiza seu amigo sentado à mesa de um bar, com o olhar apertado e vago, um sorriso artificial, tentando manter o equilíbrio da cabeça, e pensa: essa cara não tem jeito!

Paulo, falando sobre o mesmo problema, a liberdade do cristão, mas usando como exemplo da época o comer coisas consagradas de outras religiões ao invés da bebida, falando daquele que tendo conhecimento e domínio próprio (como o amigo que ofereceu o vinho no almoço), mas desconsidera a consciência dos mais fracos, nos escreve:

Assim, esse irmão fraco, por quem Cristo morreu, é destruído por causa do conhecimento que você tem. Quando você peca contra seus irmãos dessa maneira, ferindo a consciência fraca deles, peca contra Cristo. Portanto, se aquilo que eu como leva o meu irmão a pecar, nunca mais comerei carne, para não fazer meu irmão tropeçar. (1 Coríntios 8:11-13 - NVI)

Note que a liberdade que Paulo fala está sendo ponderada pela peneira da edificação e, de modo mais profundo, do amor e cuidado com os mais fracos.

Certamente eu poderia escrever muitas páginas ainda sobre o tema, trazendo diversos exemplos, mas o hábito da leitura extensa ainda nos é pesada e poucos os que a suportam.


A liberdade cristã, portanto, não é medida por regras permissivas ou proibitivas, como muitos pensam. Ela é medida por questões de solidariedade, respeito e amor, a si, a Deus e ao próximo. E tudo o que não provém do Amor é contra Deus, pois Ele é Amor.

TEMPO DE AMADURECER

Leandro Dorneles


No final do capítulo 5 de Hebreus e início do capítulo 6 o pregador (possivelmente Paulo) exorta a Igreja ao amadurecimento da vida cristã e ao aprofundamento das coisas espirituais, uma vez consolidadas no entendimento aquelas básicas sobre fé, batismo e arrependimento dos pecados. Na primeira carta aos Coríntios, Paulo exorta uma Igreja rica em dons espirituais e parar de agir como meninos. À Igreja de Filipos, Paulo pacientemente ensina aos irmãos a se alegrarem “em Deus”, a terem a vida de Cristo como estímulo de fé e às suas promessas como o sentido da vida.

Todavia, passados muitos séculos encontramos uma Igreja ainda infantil, carnal, neófita, sem experiência e sem profundidade. Na verdade, a história nos revela que o amadurecimento da Igreja estava intrinsecamente ligado à perseguição que a mesma sofria (e silenciosamente ainda sofre). Quanto maior fosse a perseguição, mais a Igreja se expandia e crescia na Graça e no Conhecimento de Cristo. Cristãos que não sofrem perseguições tendem a continuar agindo como meninos. O desconforto nos tira da estagnação e o conhecimento só se adquire quando nos tornamos inconformados.

Certamente o advento das redes sociais, desde as salas virtuais de bate papo, acentuou e denunciou um comportamento no mínimo infantil de boa parcela dos cristãos.

Irmãos atacando outros irmãos por causa de placas denominacionais, uma geração que amaldiçoa, pragueja, que usa palavras torpes e isso para falar de outros irmãos. Uma geração que leva seu irmão a juízo perante descrentes, que expõe a Igreja de Cristo à vergonha ao invés de sofrer o dano sozinho. Uma Igreja que não se sente família, não há unidade ou sentimento de pertencimento a um mesmo e um só Corpo do qual Cristo é a cabeça. Uma Igreja que não ama e não se compadece; rápida para julgar, para condenar e para maldizer, que ao invés de atrair os pecadores se faz seu pior exemplo e seu discurso religioso é rapidamente convertido em hipocrisia e farisaísmo.

Por isso os milagres se tornam cada vez mais raros, pois até disso se quer tirar um “selfie” e postar nas redes sociais. Deveríamos ter vergonha de nos expor tanto nas redes sociais e passar mais tempo confessando-nos a Deus.

É hora de a Igreja rasgar novamente suas vestes e se cobrir de cinzas. De jejuar, de se humilhar, de voltar ao recôndito do seu quarto para orar, em lugar da internet; de tornar a ter intimidade com Deus, sem fotos, sem vídeos, sem selfies; é hora de parar de publicar orações e correntes nas redes sociais e passar a orar de verdade, dobrar os joelhos, confessar os pecados e se arrepender dos seus desvios de caráter e personalidade ao invés de se orgulhar deles. 

É hora de ler menos histórias bonitas e livros de autoajuda e meditar mais nas Escrituras Sagradas, pois elas são vida para quem nelas medita. De compartilhar menos posts com frases de amor à família e passar a se dedicar verdadeiramente a elas, passar mais tempo com os filhos e netos, com a esposa, o esposo, com seus pais e avós, com seus irmãos e amigos.

É fácil? Não. Também não é fácil pra mim.

A única coisa verdadeiramente fácil neste mundo é o caminho que conduz a perdição e são muitos os que andam por ele. Todo o resto é deveras difícil... mas não impossível.

INFÂNCIAS MACHUCADAS

Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo (II Coríntios 5:17).

Um dos maiores dons que Deus concedeu aos Seus filhos é o novo nascimento. Não reencarnação, mas novidade de vida. Nascer de novo! Deixar tudo para trás! Esquecer o passado, afogar as mágoas no mar do esquecimento, enxugar as lágrimas dos acontecimentos tristes que já passamos, das pessoas que nos magoaram e nos machucaram, das indiferenças, dos escárnios, das humilhações que sofremos na escola, no trabalho, no círculo de amigos, na igreja; ter a dívida dos pecados perdoada, não se sentir mais condenado, ser livre para amar e adorar a Deus com todo o coração, sem medo de condenação.

Sim, nascer de novo! Então recebemos a Jesus Cristo como nosso Senhor e Salvador, nascemos novamente, e eis que tudo se faz novo. Não temos mais medos, nem traumas, nem mágoas, nem ressentimentos, nem receios, nem desilusões... tudo se apaga e somos instantaneamente transformados à Sua Imagem e Semelhança, Seu Caráter Santo! Oh Glória! Não foi assim com você, quando aceitou a Jesus Cristo como seu único e suficientemente Senhor e Salvador? Não? Bem, comigo também não.

Na verdade, as coisas não acontecem dessa forma, de maneira tão rápida. Quando nascemos novamente nosso espírito é instantaneamente regenerado, mas nossa alma não. Voltamos-nos para Deus com um espírito novo, dispostos a servir e a promover o Evangelho de Cristo a toda criatura, mas carregamos junto um fardo de emoções deturpadas, sentimentos de fracasso e derrota, inseguranças, raízes de amargura, falta de perdão, complexos e fobias de toda sorte. Geralmente essas feridas na alma começam muito antes do que pensamos, na verdade, muitas vezes antes mesmo da formação completa de nossa personalidade.

Viemos para o Senhor carregados de culpa, sentimentos de abandono, de insatisfação, e, normalmente conciliamos o caráter e personalidade de Deus com o de nossos pais, avós, irmãos, amigos, daqueles que nos criaram, cuidaram (ou não) de nós, razão porque muitas vezes professamos não sentir o Amor de Deus, impedidos de enxergar o carinho, o amor, a graça, o cuidado e a misericórdia que o Pai tem por nós. E ainda que escrevêssemos inúmeras páginas sobre o Amor de Deus, citando milhares de trechos das Escrituras, contudo, quando carregamos as pisaduras de um passado dolorido, de uma infância traumatizada, não conseguiríamos sentir em nós mesmos esse Amor e carinho que o Pai nos deu através de Seu Filho Jesus.

Para muitos de nós a cruz é ainda algo superficial a respeito de nossa própria vida. É como se Cristo tivesse morrido por todos, menos por mim. E ninguém pode se sentir culpado por possuir esses sentimentos (ainda que venham as acusações). Quando assim machucados, ouvimos tantas vozes em nosso íntimo, vozes de acusação e cobrança, e achamos que é sempre a voz de um Deus juiz, impaciente, incompreensível, que nunca está contente conosco, esperando uma brecha, um erro nosso para poder menear a cabeça e dizer “Você não tem jeito! Você sempre erra em seu coração!” São vozes da nossa infância que permeiam o âmago de nosso ser, vozes de insatisfação, violência e ódio, desprezo, impotência e desgraça.

Então nos formamos pastores, líderes espirituais, doutores em teologia, às vezes médicos, professores, advogados, engenheiros, profissionais muito bem sucedidos, muito inteligentes e capacitados... mas infelizes! Estamos sempre tentando nos superar, tentando provar a nós mesmos que podemos, que suportamos, que damos conta do recado, tentando provar nosso valor para os outros, e, quando convertidos, tentando provar a Deus que somos dignos de Sua Salvação pelo nosso grande esforço, dedicação, obras e comportamento. E quando falhamos tornamo-nos depressivos. Às vezes pregamos uma intimidade com Deus sem, contudo, conseguirmos vivê-la, apenas pregando porque na verdade é o que gostaríamos de ouvir. Pregamos a felicidade, tentando suprir nossa infelicidade; pregamos alegria, tentando superar nossa tristeza; pregamos salvação tentando disfarçar nosso sentimento de culpa e condenação. Pregamos muitas vezes o que não somos, mas gostaríamos de ser. Outras vezes, pelo contrário, nos tornamos pessoas desagradáveis, insensíveis, faltos de misericórdia e compaixão, imperdoáveis, displicentes em tudo e com todos, e, quando convertidos, pregamos um Deus furioso, que não perdoa o pecador, que exige perfeição absoluta e em todos os sentidos, pregamos fofocas, pregamos por inveja, com violência, como se o céu fosse abrir-se a qualquer momento e tragar a todos os pecadores da terra. E na verdade, estamos expressando aquilo que achamos que Deus pensa de nós mesmos, falamos como falaram a nós, tornando-nos o reflexo daquilo que odiamos.

São feridas profundas que parecem nunca cicatrizar. Dizemos que são nossos espinhos na carne, justificando com as seguintes palavras vazias: Eu sou assim! Nasci assim! É o meu jeito! Deixamos de ser sinceros com nós mesmos, não querendo mais ouvir as vozes em nosso interior, ansiando conseguir esquecer quem somos ou quem pensamos ser.

Quantos de vocês já se sentiram ou ainda se sentem assim? E quantos não dariam tudo o que têm para não ser mais assim, não sentir mais esses sentimentos? Quantos gostariam de mudar, de nascer de novo, mas já perderam a esperança? Se você se encaixa, totalmente ou em parte nesses perfis acima, então é com você mesmo que Jesus está falando nesse momento. Ouça-O:

Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve (Mateus 11:28-30).

Deus te amou tanto que não suportou ver você sofrendo, e deu o Seu Grito de Amor:

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele (João 3:16-17).

Deus jamais se esqueceu de você:

Porventura pode uma mulher esquecer-se tanto de seu filho que cria, que não se compadeça dele, do filho do seu ventre? Mas ainda que esta se esquecesse dele, contudo eu não me esquecerei de ti (Isaías 49:15).

Deus jamais te desamparará:

Não te deixarei, nem te desampararei (Hebreus 13:5).

Deus te conhece:

Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento. Cercas o meu andar, e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos. Não havendo ainda palavra alguma na minha língua, eis que logo, ó SENHOR, tudo conheces (Salmos 139:2-4).

Ele já providenciou a tua cura:

Verdadeiramente ele [Jesus] tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si (Isaías 53:4).

Ele sofreu por amor a você:

Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum (Isaías 53:3).

E Ele está falando com você nesse momento:

Eis que estou à porta [do teu coração], e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa [vida], e com ele cearei, e ele comigo (Apocalipse 3:20).

Deixe o Espírito Santo curar tua alma!

Entregue teu fardo a Jesus Cristo e Seja Feliz!


Leandro Dorneles
Obs: Artigo escrito originalmente em 2006 e adaptado em 2016.

A SABEDORIA E O MOVIMENTO DAS NUVENS

Leandro Dorneles


Recentemente tive um problema com meu notebook e acabei perdendo muitos arquivos e fotos... utilizei um programa para recuperação de dados para resgatar alguma coisa e aproveitei para recuperar fotos do meu HD externo também. Resultado: com apenas 20% de escaneamento (não quis esperar mais) recuperei pouco mais de 5 mil fotos... E com isso 5 mil lembranças também. De minha mãe, de minha infância, dos meus amigos e de tantas pessoas que já passaram pela minha vida.

Certamente a nostalgia nos tira um pouco do centro, balança os sentimentos e as emoções, trazendo-nos saudades até da folha da árvore que um dia vimos cair...

No Sul, entre meados de outubro e novembro surge certa brisa leve e suave, um vento relativamente frio temperado com o calor dos raios de sol que brigam por espaço entre as nuvens primaveris do céu gaúcho, num movimento acelerado e constante, demonstrando que tudo é passageiro. Sim, uma geração vai e outra vem... e nada há de novo debaixo do Sol. Lembro-me de ficar sentado no quintal de minha mãe, com meu violão, observando as nuvens e buscando discernir a sabedoria que elas declaram... Eram tempos incríveis.

O tempo é instrumento de Deus para ensinar muitas coisas, aos que nele prestam atenção. Vivemos tão acelerados que desacostumamos a prestar atenção nos detalhes. Talvez, grande parte dessa geração sequer vislumbrou um dia o movimento das nuvens.

São tantas ambições, tantas metas, tudo pra ontem... E na expectativa do amanhã deixamos de viver o hoje e de curtir cada momento.

Estou envelhecendo... Não, não por conta das minhas cãs, das quais carrego desde os meus 14 anos. Não porque minha coluna já não seja mais a mesma, ou porque o cansaço das manhãs ficou mais pesado. Estou envelhecendo porque já consigo ver certos horizontes a minha frente que me fazem refletir sobre onde efetivamente quero chegar. Porque começo a rever minhas prioridades e impor meus próprios limites. Porque começo a ter certos temores e a rever certos conceitos.

Eu sei que tudo passa, tudo é efêmero, exceto as palavras de sabedoria quando penetram ao coração. Lembro-me - e constantemente as replico -, de certa frase que li na época do ‘falecido’ Orkut, em um contexto qualquer: “não permita que o urgente tome lugar do importante”. Não poderia ouvir nada melhor.

Em minha correria entre faculdade, trabalho e sonhos pessoais, uma coisa me faz parar o tempo: a batida à porta, de minha filha pedindo atenção. É onde eu descalço de mim e dar-lhe o tempo que ela precisa para viver sua plenitude infantil. Da multidão de livros e videoaulas ela me despe para dar papinha e voz às suas bonecas e personagens favoritos. Porque me recuso a deixar que a urgência dos meus anseios tome o lugar da tão rápida e singular infância da minha menina, ainda que isso me custe mais madrugadas em claro para compensar o atraso de outros compromissos.

E com isso, a reflexão de tantas outras coisas mais importantes que as urgências da minha vida. O envelhecer traz a maturidade para se reconciliar consigo e com os outros. Porque passamos a dar importância até àqueles que não nos acrescentavam muito. Se não percebemos essa necessidade é porque ainda vivemos na vaidade da nossa juventude que acredita durará para sempre.

Tudo isso pode ser aprendido pelo simples contemplar das nuvens em movimento. Quanto mais do ouvir as palavras de Deus que constantemente batem a porta, quando não, dos nossos sonhos e visões noturnas.

Que possamos aprender mais com as nuvens, com o silêncio, com as coisas importantes e com a inconfundível voz do Criador, porque Ele fala, a todo instante, ao nosso coração. Se O escutarmos, ganharemos a Eternidade ao Seu lado.




ONDE ESTARÁ A IGREJA DE CRISTO?

A cada dia tenho preocupadamente percebido tamanho distanciamento do "evangelho das mídias" com o evangelho de Cristo.

O "cristianismo" do século XXI está se distanciando e muito do Jesus da Bíblia, da vida apostólica e dos discípulos do sermão do Monte. Com isso, uma grande onda de gente perdida e confusa tem anunciado inúmeras atrocidades em nome de um Jesus que não conheceram. Tenho visto declarações de ódio em nome de Jesus, de ignorância e de descaso com a causa maior de termos sidos escolhidos para a Seara. Pessoas cada vez mais insensíveis, desaforadas, arrogantes e precipitadas nas palavras, com muita leitura inútil e pouco conhecimento Bíblico.

Cristãos racistas, homofóbicos (na correta e coerente utilização do termo), preconceituosos, murmuradores, rebeldes, insubordinados, carregados de ódio, mágoa, rancor e incredulidade, termos tão antagônicos a quem se declara discípulo de Cristo, revelando total incoerência e mancha no testemunho dAquele que se entregou na Cruz em favor da humanidade.

“Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele temos este mandamento: que quem ama a Deus, ame também a seu irmão” (1 João 4:20,21).

Espanta-me esse vergonhoso crescimento da “religião” (no sentido mais pejorativo da expressão) cristã, que cresce e se desenvolve sem raízes, tal como a casa edificada sobre a areia.

Um cristianismo sem conversão, sem experiência espiritual, jamais será cristianismo. Por isso tantas pessoas apostatando da fé. Uma fé, porém, sem substância, fruto da religiosidade doutrinária, não de um novo nascimento.

A institucionalização do cristianismo e sua transformação midiática em nome de uma prosperidade que se assenta em bases distorcidas da hermenêutica bíblica com o único intuito de se obter enriquecimento ilícito e status social tem sido mais danosa do que as pragas do Egito.

O que aconteceu com a simplicidade do evangelho? Onde estão as pessoas que se preocupam mais com as coisas do céu do que com as coisas da terra? Que se preocupam mais com pessoas do que com coisas?

Estamos vivendo um cristianismo capitalista onde servir a Deus se tornou motivo de barganha e atalho para uma falsa prosperidade. Perdemos o real conceito de vida próspera, iludidos pela luxúria e pela lascívia. Pessoas que jamais foram transformadas pela Palavra falando em Nome de um Deus desconhecido.

E o resultado não poderia ser mais desastroso: pessoas machucadas, frustradas, desiludidas, afastadas de Deus e do Seu Amor pela exposição e compreensão equivocada de um Reino que não pertence ao Céu, senão a esse mundo e ao próprio ventre.

Temos dado lugar ao misticismo religioso, simpatias, mantras e até maldições e ameaças em nome, na verdade, de si mesmo, querendo atribuir a Deus nossos devaneios.

Essa, todavia, não é a primeira vez que a Igreja se esfria e se contamina com o profano. Inúmeras vezes em que Deus precisou avivar sua Obra, fazendo com que Seu povo passasse por longos períodos de deserto e perseguição, até que se arrependessem dos seus maus caminhos. Um longo período de trevas, até que alguém tomasse alento, rasgasse suas vestes e se humilhasse perante o Criador, clamando por perdão e misericórdia ao Seu povo que rotineiramente erguia - e ainda ergue- seus bezerros de ouro para se curvar e adorar.

Estamos nos esfriando e não estamos percebendo. Estamos acomodados em nossa zona de conforto quando deveríamos estar guerreando contra as hostes espirituais nas regiões celestes, inconformados com o jeito que o mundo está, e falo como quem se inclui nessa realidade.

“[...] e não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que proveis qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. (Romanos 12:2)

Perdemos a faculdade de ser cristão sem ser religioso, de ser discípulo de Cristo no meio de pessoas que não O conhecem. Perdemos a pureza de viver sem precisar falar ou provar o que somos e o que temos experimentado da parte de Deus. Por quê? Porque quem muito fala pouco vive. Perdemos a habilidade de pregar sem falar, sufocar e impor.

Não, eu não vejo – ou muito pouco vejo – cristianismo no meio político, nas redes sociais, nos cultos televisivos, nas rádios, nas esquinas, nas praças ou nos ônibus. Vejo religiosidade, vejo a comercialização da fé, vejo o abuso da liberdade de crença para atacar, agredir e afastar as pessoas de Cristo. Vejo um evangelismo voltado para a instituição religiosa, para arrecadação de fundos e de números de membros.

Também não tenho visto cristianismo nos lares, no ambiente de trabalho, na escola ou faculdade. Antes, disputas de ego, de quem sabe mais, de quem tem a razão, de quem é o dono da verdade, da última palavra, o mais espiritual, o mais sábio ou o mais santo. Discussões inúteis e infindáveis, nada produtivas, senão para dar mal testemunho aos que ouvem.

Não foi assim que aprendi na minha conversão. Não foi com isso ou por isso que me tornei cristão. Tornei-me porque um dia eu senti a necessidade de saber minha identidade e meu propósito existencial. Tornei-me porque sentia falta de intimidade com um Deus que eu conhecia muito pouco. Tornei-me pela necessidade de ser preenchido e pela necessidade de ser socorrido. Busquei-o até encontrar.

“Porque eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que esperais. Então me invocareis, e ireis, e orareis a mim, e eu vos ouvirei. E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração” (Jeremias 29:11-13).

Não me tornei cristão com a promessa de uma vida fácil, de riquezas ou de imunidade às adversidades da vida. Graças a Deus isso nunca me foi oferecido e, se o fosse, esse jamais fora o meu desejo maior. Muito pelo contrário, minha fé fora provada ao extremo nas inúmeras provações e tribulações que eu passei, achando que, por ser cristão não as passaria. Aprendi a ser cristão sem qualquer moeda de troca.

“Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado; Todavia eu me alegrarei no Senhor; exultarei no Deus da minha salvação” (Habacuque 3:17,18).

Na caminhada da fé passei as maiores provações da minha vida. No meu momento de maior intimidade com Ele, passei muitas necessidades, juntamente com minha esposa. Fui acometido com muitas enfermidades e inúmeras vezes humilhado por passar por tantas adversidades sendo cristão. Mas a minha fé estava alicerçada na Rocha e me sustentava em todas as minhas angústias. Porque eu conhecia a Quem eu servia e entendia perfeitamente que o Caminho era apertado, cheio de espinhos, e poucos são os que conseguem passar por ele.

“Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (João 16:33).

Aprendi lendo diariamente a Bíblia e nela meditando, conversando com Deus no recôndito do meu quarto, clamando, chorando, me humilhando e contemplando o Seu Amor e cuidado.

“Bem-aventurados os que guardam os seus testemunhos, e que o buscam com todo o coração. [...] Com que purificará o jovem o seu caminho? Observando-o conforme a tua palavra” (Salmos 119:2 e 9).

Meu conhecimento era fruto de muita leitura e de experiência real com Deus. O que Dele sei não aprendi na faculdade, numa instituição, num livro de autoajuda ou nas irritantes correntes das redes sociais, mas na experiência de caminhar com Ele e com pessoas cujo coração se voltara exclusivamente a Ele.

“Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra” (Oséias 6:3).

Mas o que vejo hoje são pessoas falando de algo que nunca experimentaram ou que há muito deixaram de experimentar. Conhecimento raso, falacioso, eivado de misticismo e infantilidade. Pessoas tão carentes de um toque divino que até o inventam para acalentar suas almas vazias.

Eu sei, e estou certo disso, de que Deus ainda avivará a Sua Obra novamente, provando e purificando a Igreja no fogo, como o ouro. Sem perseguição a Igreja não cresce ainda que seus templos estejam lotados.

Onde estará a Igreja de Cristo?

“[...] aviva, ó Senhor, a tua obra no meio dos anos, no meio dos anos faze-a conhecida [...]” (Habacuque 3:2b)



Leandro Dorneles

A CONFISSÃO DA CULPA: A RESPONSABILIDADE DE QUEM A OUVE E O DISCERNIMENTO DE QUEM A CONFESSA


Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis [...]. Tiago 5:16

Certa vez, há muitos anos (mas não tantos assim) resolvi conversar com um líder espiritual, que me acompanhava em muitas obras, sobre algumas lutas e fraquezas que me acometiam mesmo após meus primeiros anos de conversão cristã. Certas marcas que nasceram antes desse tempo e que teimavam em se perpetuar mesmo após uma total mudança de valores em minha vida. Espinhos que ainda me machucavam, manchas que não se apagavam, hábitos que não conseguia mudar, vícios dos quais não conseguia a total libertação. Chamei o líder para um espaço e momento reservados, expus-lhe minhas inquietações e pedi que orasse e intercedesse por mim. Mais do que isso, que me aconselhasse sobre como lidar com tais situações, afinal, falava com alguém de muito mais idade que eu e de muito mais tempo de conversão. Como Eliú, amigo de Jó, considerei precipitadamente que a idade avançada refletiria necessariamente sabedoria. Infelizmente Eliú estava certo em suas afirmações: não é a idade que torna o homem sábio, mas a inspiração que ele recebe do Todo-Poderoso (Jó 32:6-9).

Alguns dias depois, ao ministrar uma família em crise, fui surpreendido e duramente contestado por alguém do rol mais íntimo daquele líder que tentou expor aos presentes minhas confissões (das quais só o líder sabia), usando-as como forma de rechaçar meus conselhos. Isto porque tal pessoa se identificava com as fraquezas que aquela estava passando e achava que ela estava certa. Em nada, porém, fui intimidado (embora surpreso), pois os presentes também eram do meu rol íntimo e entre eles já era costume compartilharmos as fraquezas uns dos outros, logo, nenhuma novidade houve ao que de mim foi exposto.

Ao descobrir que tal exposição houvera sido dada por aquele a quem confiei meus medos e angústias, minha culpa, meus pecados, quase me desviei do Caminho.

Infelizmente essa não foi a única vez que vi minhas confissões expostas a terceiros, pessoas as quais seletivamente compartilhara minha vida, esperando consolo, conforto, apoio e orientação. Volta e meia a história se repete e alguém que considerávamos apto a guardar segredos e compartilhar experiências enxerga na fraqueza alheia um meio de se mostrar superior, expondo nossas mais íntimas confissões na presença de terceiros, às vezes, no calor de um debate. E isso me trouxe grande preocupação e reflexão sobre os limites da intimidade que devemos ter em todos os círculos sociais que transitamos. E na igreja (aqui entendida como pessoas que professam a mesma fé, não necessariamente a instituição), principalmente no que se refere à confissão, a quem compartilhar e a responsabilidade daquele que aconselha ou simplesmente ouve.

É certo, porém, que tais experiências me trouxeram grandes lições, revelando a máxima de que “todas as coisas cooperam juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, dos que são chamados segundo o Seu propósito” (Romanos 8:28).

Comecei então a refletir sobre a responsabilidade que Deus confia a uma pessoa para representá-lo, para ser seu mensageiro, seu portador de boas novas, seu discípulo. E pensei nas diversas vidas que Deus já permitiu vir até mim, expondo seus pensamentos, atitudes e sentimentos mais íntimos, suas angústias e necessidades, suas fraquezas, seus pecados e em como cuidadosamente aconselhei, na medida da minha experiência e do meu conhecimento da Palavra e do sigilo que necessitei dar ao que ouvi. Senti tanto temor pelo peso da responsabilidade que recaia sobre meus ombros e como eu deveria lidar com tais confissões enquanto ouvinte e ministrante da Palavra de Deus.

Obviamente que não sou o único. Assim é o dia-a-dia de milhares de líderes espirituais, de advogados, médicos, psicólogos e tantos outros profissionais ou pessoas da confiança de alguém, que sabem a responsabilidade do sigilo da informação que recebem. E aqui se revela o caráter ético e o compromisso destas pessoas.

Hoje, vemos os efeitos da exposição da intimidade e privacidade (algumas vezes voluntária) de muitas pessoas nas mídias sociais, por pessoas que tinham sua confiança e por outras que lucram com tal exposição alheia: atos e consequências que extrapolam os limites da dignidade e da ética, cujos efeitos foram catastróficos, desde um processo judicial até o extremo do suicídio. Pessoas que confiaram a outrem seus segredos mais íntimos, seus desejos mais profundos, suas fantasias, suas pensamentos polêmicos, suas fraquezas... e foram surpreendidas com sua exposição nas mídias sociais. Por outro lado, percebo como muitas pessoas não se importam com isso e expõem detalhadamente sua vida privada: o que fez ontem, há 5 minutos, o que vestiu, o que comeu, para onde foi, o que comprou, com quem saiu... não existe um único evento de seu cotidiano que fuja da exposição, com fotos, vídeos e declarações. Parece não haver limites para estes, até o dia em que são surpreendidos por aqueles que os observavam, para bem ou mal.

Mas afinal, por que temos tanta necessidade de compartilhar o que se passa em nossas mentes e corações?

A psicologia dará uma resposta, também a psicanálise, a teologia, a filosofia... cada uma delimitada por seu objeto, sua extensão, origem e efeitos na esfera do comportamento que lhe caiba analisar. Portanto, a partir daqui me aterei somente ao que concerne à fé cristã e ao seu objeto aqui exposto: a confissão dos pecados.

A confissão dos pecados é a exteriorização do íntimo pela necessidade de libertação do sentimento de culpa, de arrependimento diante da acusação, de reconhecimento diante da sanção da lei previamente estabelecida e da necessidade de justificação e absolvição diante do juízo divino. Mais importante ainda, a confissão dos pecados vem como declaração de amor ao ofendido buscando o seu perdão.

A confissão liberta e traz cura interior pelo reconhecimento de sua fraqueza ao mesmo tempo em que revela o desejo de ser liberto e curado (arrependimento). Fazendo um paralelo ao direito penal, podemos afirmar que o perdão divino é a sentença de absolvição da culpa, não porque haja um vício no ato praticado que a justifique; não porque o ato seja atípico ou que o sujeito praticante seja inimputável; não porque tal ato resulte em excludente de ilicitude ou de culpabilidade. Nem mesmo a absolvição resulta da aplicação do princípio da insignificância. O perdão dos pecados é uma consequência do princípio da substitutividade divina mediante três atos: fé, arrependimento e confissão. Cristo ao ser crucificado tornou-se substituto dos transgressores, recebendo em si o castigo, a sentença que àqueles estava proposta (Isaías 53:4-5). Cristo assume diante de Deus a responsabilidade por nossos pecados, uma única vez e para sempre, a fim de que possamos receber o perdão divino “SE” crermos Nele e no que Ele fez; arrependermo-nos dos nossos pecados, - revelados mediante a exposição da Palavra da Verdade e da testificação do Espírito de Deus que fala ao nosso coração para convencimento desta Verdade- e confessarmos nossa culpa e total impossibilidade de se autojustificar. Uma vez confessado, Deus dá a sentença favorável, sem possibilidade de que o acusador (diabo) recorra, fazendo coisa julgada material.

“Porque serei misericordioso para com suas iniquidades, e de seus pecados não me lembrarei mais” (Hebreus 8.12).

Quando confessamos nossas culpas estamos reconhecendo que temos conhecimento da verdade e que cremos nela de tal forma a nos humilhar diante de Deus, rejeitando tais condutas réprobas e reconhecendo Sua Graça (i.e. favor imerecido) e amor no sacrifício de Cristo em nosso lugar. Quando confessamos nossas culpas, estamos declarando que Cristo não morreu em vão por nós e que desejamos ser como Ele: agradando a Deus em todo o tempo.

Por isso nos sentimos bem quando nos confessamos. Mas essa confissão pode virar nossa própria sentença condenatória se não estivermos certos de a quem estamos confessando, se não tivermos confiança em quem ouve nossos segredos, nossos medos, angústias, fraquezas... e se não estivermos plenamente convictos de que quem nos ouve pode de alguma forma nos ajudar. E eis o que tenho visto e aprendido:

Há certas coisas que somente Deus pode suportar ouvir, já que Ele está destituído de qualquer parcialidade ou preconceito, jamais lançando em rosto nossas fraquezas e pecados confessados. São problemas que dizem respeito ao seu relacionamento com Deus.

Há outras que grandes amigos ou a própria família podem até suportar. Todavia, haverá situações em que talvez não tenham a melhor palavra ou conselho para lhe dar, porque cada um só dá o que tem e, não sendo eles cristãos, o efeito pode ser muito negativo quando se tratar de conflitos envolvendo princípios espirituais. Ou, porque o pecado confessado esteja intrinsecamente ligado a eles ou a algum deles. Para estes casos, a experiência faz muita diferença. E o papel do líder espiritual experiente e experimentado na Palavra vem para suprir essa lacuna: ouvir o pecado, declarar o perdão pela Palavra de Deus (João 20:23) e orientar sobre como proceder em relação ao que foi confessado, como, por exemplo, propiciar um ambiente favorável para que o ofendido possa ouvir abertamente o seu ofensor, dando-lhes a oportunidade para a reconciliação.

E há outras, ainda, que requerem uma ajuda profissional, paralelamente à espiritual. Casos como depressão, traumas profundos que impõem restrições à vida social, violência doméstica, e outros cuja gravidade pode afetar a integridade física, sua ou de terceiros, requer, às vezes, além de aconselhamento o uso de medicação, ou até de medidas judiciais, afinal, nem tudo é espiritual. “O que é da carne é carne, e o que é do Espírito é espírito”. Precisamos aprender a separar as coisas. Todavia, mesmo nestes casos, nada impede que um líder espiritual de confiança possa ouvi-lo e orientar, ajudando-o a discernir se a questão é unicamente espiritual ou não e oferecendo-lhe o devido encaminhamento.

Quanto ao líder espiritual ou um irmão na fé de confiança, é certo que tanto a responsabilidade pelo sigilo da informação quanto à responsabilidade pelo conselho que será dado serão deles cobradas naquele Dia (do julgamento). Portanto, se não souber o que falar ou não tiver convicção do que deva ser dito, por favor, seja sábio e não diga nada, para que não seja reprovado diante de Deus como os amigos de Jó e posteriormente envergonhado.  E se não consegue guardar para si o que ouviu abstenha-se de ouvir para também não pecar. Porque por cada palavra precipitada que for dita lhe será cobrado naquele Dia (Mateus 12:36-37).

Independentemente de a quem você compartilhará suas fraquezas, saiba que Deus sempre será o maior interessado em ouvi-las, porque Ele sempre tem uma boa palavra para nos dar na hora da angústia.

“Confessei-te o meu pecado, e a minha iniquidade não encobri. Disse eu: Confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a culpa do meu pecado” (Salmo 32:5).

Que possamos nos achegar a Deus em tempo oportuno para confessar, arrepender-se e receber Dele o perdão e o Amor que o Pai já nos deu por meio de Cristo.

“Se dissermos que não temos pecado nenhum, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1:8-9).

O Pai te ama! Achegue-se a Ele com humildade e coração sincero e Ele se achegará a você!


“O sacrifício aceitável a Deus é o espírito quebrantado; ao coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” (Salmo 51:17).

O ANDARILHO E O VIAJANTE (O CAMINHO)


Sempre fui curioso com muitas coisas. Sempre quis aprender muitas coisas. Conhecer e inquirir, saber até onde poderia chegar, até onde existe para se chegar.

Certa vez encontrei um andarilho que me falou de um lugar distante, de que poucos tinham encontrado e poucos sabiam como chegar. Interessei-me pela descrição do lugar e decidi que seria um desses poucos que lá chegariam, só não sabia como. Foi quando ele prontamente se propôs a me acompanhar. Disse que conhecia muito bem o caminho e que sem ele certamente eu não conseguiria chegar lá. Notei alguns machucados em suas mãos e pés, e as vestes também não eram das melhores. Todavia, algo nele me passava confiança. Entusiasmado, me despedi de amigos e familiares, coloquei minha mochila nas costas e saí, rumo a um lugar desconhecido, mas com boas referências daquele andarilho e de outros que também davam bom testemunho.

Para minha surpresa, logo no início da trilha vi diversos aventureiros seguindo a mesma direção. Parecia que o lugar era realmente bom. Vi pessoas com todo tipo de equipamento e suprimento e percebi que o caminho não seria curto e nem fácil também.

O andarilho me fazia companhia e também conversava com alguns no meio do caminho que lhe davam atenção. Muitos o ignoravam e o achavam meio louco, procurando manter certa distância. Outros pareciam ter mais intimidade com ele.

No segundo dia, ao anoitecer, uma forte chuva desceu, com ventos fortes e trovões. Muitos ficaram assustados e desistiram da viagem. Ligavam para familiares e pediam para que os levassem de volta às suas casas. Outros pegaram carona e também voltaram. Parecia certo não correr tantos riscos por causa de um lugar desconhecido. Mas eu estava entusiasmado e prossegui.

Confesso que fiquei com medo e pensei em desistir também. Mas a companhia do andarilho me dava ânimo e confiança, por saber que tinha um aliado experiente e muito seguro acerca do caminho e do que dele esperar. Mais tarde ele explicara que a mudança repentina do tempo era habitual naquela viagem e seria muito comum ao longo da jornada, o que também me acalmou.

Ao amanhecer, a chuva havia cessado e um dia ensolarado surgia. Com o tempo bom a caminhada parecia ser bem mais rápida, mas a chuva e a ventania geralmente apareciam nos trechos mais perigosos e com mais obstáculos, o que nos obrigava a passar com mais veemência e sem pestanejar, caso contrário, seríamos tragados pelo mau tempo. Quando o medo tentava me dominar eu olhava para a face do andarilho, pois ele sempre apresentava uma expressão de coragem e determinação, como se tivesse controle sobre toda a situação.

E andando contemplei muitas paisagens belas. Umas não tão belas assim. Os dias passavam rapidamente e na medida em que avançávamos, também percebi que o número de viajantes diminuía. Uns paravam a beira do caminho, cansados e decidiam voltar. Lembravam dos amigos, da família, do conforto e bem estar do seu lar. Para que abrir mão de tudo isso por um lugar que ninguém sabia, de fato, como era? Exceto o andarilho que dizia conhecer o lugar. Outros desfaleciam, sempre isolados dos demais, aparentando não conseguir avançar mais e também não queriam ser ajudados. Falavam algo sobre o mérito de conseguir chegar com seus próprios esforços, coisa que não entendi muito bem. Alguns estavam aguentando bem a jornada, até que lhes aparecia um amigo ou parente tentando convencê-los de que era loucura continuar daquele jeito e ofereciam-lhe carona para voltar. Muitos desistiam e voltavam, aparentando certa frustração.

Realmente não era um caminho muito fácil. Os pés doíam muito e o cansaço era contínuo. Não sabia como havia suportado caminhar tanto, naquelas condições. Mas, repito, eu não estava só, o que me motivava sempre a continuar. Não sei de onde saía tanta comida daquela tão pequena mochila que o andarilho carregava. Mas sempre era o suficiente pra nós dois. Imaginava que ele deveria sair nas madrugadas, adentrando nas matas a beira do caminho para colher frutas e encher as garrafinhas de água.

Já fazia muito tempo que estávamos na estrada. Às vezes, parecia que ela não tinha fim e nunca chegaríamos ao tal lugar maravilhoso. Até que, num belo dia, distraído com a paisagem bucólica que nos cercava, avistei um pequeno jardim a beira do caminho e fiquei tentado a entrar nele para descansar, já que o jardim era rodeado de árvores frutíferas que faziam uma bela sombra a quem se deitasse em seus pés, e no seu recôndito uma pequena fonte, límpida e cristalina. Pensei até ser aquele o lugar que procurávamos. Mas o andarilho afirmava que o lugar que estávamos procurando era incomparável a qualquer outro e não achou uma boa ideia parar. Mas eu insisti. Eu estava muito cansado, com fome e determinado a aproveitar o conforto que aquele pequeno jardim oferecia. Olhei para frente e vi que a estrada parecia ser sempre reta e ele já havia me dito que estávamos a mais da metade do caminho.

Ele insistiu que continuássemos, mas eu estava decidido a parar naquele lugar e descansar. Convidei-o a ficar comigo e descansar também, mas ele se recusou e disse que seguiria em frente. Despedimo-nos enquanto eu o convencia de que o alcançaria mais tarde, pois já saberia o caminho daquele ponto em diante. Confesso que não me senti muito bem com a nossa separação, e o semblante dele não era melhor que o meu.

Eu sempre acreditei que tinha certeza para onde eu estava indo e que não precisaria ter pressa para chegar, porque certamente eu chegaria lá.

A presunção talvez tenha sido minha maior inimiga nesse tempo. Porque achando estar perto, não apressei meus passos e me distraí com a visão das muitas árvores frutíferas naquele pequeno jardim a beira do caminho, seus frutos e suas sombras. Parei, comi e descansei. Sem pressa de continuar. E encontrei nova inimiga: a comodidade.

Assentei-me sob a sombra das árvores, cortei lenha, construí uma cabana e repousei como quem repousa numa casa de verão.

Observei as nuvens e delas recitei provérbios e extraí poesias e canções. Afinal, para que a pressa? O importante era chegar até o fim, e não o chegar primeiro! Encontrei umas poucas ovelhas ao redor do jardim e criei um pequeno aprisco. Agasalhei-me de lã e passei a decorar minha cabana com belos enfeites e adereços. Esqueci-me até pra onde estava indo. Só sentia falta da companhia do andarilho.

Acordei num belo dia e senti dores nas articulações. Minha hérnia de disco começara a incomodar. As pernas já não tinham mais a mesma resistência de quando eu seguidamente trilhava pela apertada e ensolarada estrada. Não havia percebido que eu estava naquele jardim já há muito tempo. Muito tempo, mesmo!

Lembrei-me do meu amigo andarilho e só pensava que ele já teria chegado ao lugar que tanto me falava há muito tempo e que talvez nem se lembrasse mais de mim.

Voltei-me novamente para o caminho, e, ao dar os primeiros passos, a velhice me afrontou. Olhei para trás, para tudo o que eu já havia andado e deixado para trás... como se fora ontem, embora houvesse se passado mais de uma década. Vi pessoas conhecidas andando na estrada, sem saber muito bem para onde ir. Também vi os que nela morriam, sozinhos, encostados em árvores ou pedras. Curiosamente vi alguns poucos que outrora tinha desistido e até alguns da minha casa e da minha cidade, que zombaram de mim quando parti com o andarilho. Avistei alguns que eu sabia jamais chegariam ao final dela, pois que, como eu, terminavam seus dias acampados à beira do caminho, obcecados pela sombra das árvores frutíferas e pelo conforto dos jardins passageiros. E me perguntei se eu, um dia, também chegaria.

Estava ficando velho. A saúde já não era a de um adolescente, como quando comecei a andar pelo caminho. Sabia que precisava retornar à trilha. Mas e a minha cabana? E o meu rebanho? E tudo que construí? Acaso, deveria deixar tudo? Não seria uma atitude irresponsável? Porque comigo certamente não poderia carregar. E passei a ficar dividido entre o lar que eu havia construído naquele lindo jardim a beira do caminho e a incerteza de chegar até o fim daquela pedregosa estrada.

Percebi que, sem a expectativa de chegar ao fim dela, nada do que eu havia construído e nada do que eu havia sacrificado ao longo desses anos todos teria sentido. Só tinha sentido porque havia um fim maior a ser perseguido, embora eu já não soubesse mais qual.

E o que havia, afinal, no fim da estrada? Eu já nem lembrava mais. Por isso mesmo precisava voltar para ela. Para saber por que gastei tanto tempo nela andando. E a saudade do amigo viajante me incomodava mais do que qualquer coisa.

Percebi outro perigo: que o percurso tinha tempo e prazo determinados para ser trilhado, pois que as marcas da trilha sumiriam com o tempo, até que ninguém mais pudesse encontrá-la. Um dos que passara por mim gritava aos demais: “Corramos!”

No meio do caminho, me senti sozinho e com medo. Não estava mais tão certo se ainda estava no mesmo caminho que iniciei. Foi quando tornei a encontrar meu amigo, o andarilho que tanto me incentivou a pegar a estrada. Esteve comigo o tempo todo, até o momento em que parei naquele jardim. De lá ele seguiu viagem e eu fiquei. Quando o vi novamente, era como se ele estivesse ficado atrás daquele jardim o tempo todo, esperando que eu me animasse a pegar a estrada novamente, pois ele a conhecia como ninguém e sabia que sem ele eu jamais conseguiria chegar.

Pedi desculpas por ter me distraído no caminho e estacionado. Atrasei nossa viagem. Perdi momentos maravilhosos ao seu lado. Deixei-o sozinho por muito tempo, pois quis descansar e apreciar aquele jardim. Afinal, eu nunca havia estado num jardim daquele antes.

Ele prontamente sorriu e começou a caminhar comigo, explicando-me os obstáculos que eu ainda encontraria na jornada e também o perigo das distrações à beira do caminho, o risco de jamais chegar ao final. Como eu estava mais velho, sentiria com mais gravidade os obstáculos e teria que ter muito mais paciência do que antes se quisesse ir até o fim.

Andamos por muitos dias, semanas, meses... E mais alguns anos. A noção de proximidade dele não parecia bater muito com a minha. Durante o dia o sol era muito forte e a noite o frio era de congelar, como num deserto. Confesso que sentia falta da comodidade que o jardim me oferecera no tempo em que nele estive. Sua companhia, no entanto, me fazia esquecer o tempo e suas intempéries. Ele me contava muitas histórias sobre o lugar que estávamos procurando, algumas eu até achava que ele inventava só pra me alegrar e dar esperança de continuar. De tão extraordinárias e mirabolantes parecia impossível imaginá-las como sendo reais.

Construímos uma bela amizade, e laços mais fortes que aqueles ditos sanguíneos. Cheguei ao ponto de ousadamente declarar-lhe que sua companhia me fazia tão bem que eu já não me importava mais em chegar rapidamente ao fim daquela estrada. De que o que teria lá poderia até ser maravilhoso, como ele afirmava, mas não saberia se seria melhor do que estar em sua companhia.

Quando finalmente estávamos a uma curta distância do final do caminho, questionei-o: “Afinal, o que tem mesmo no fim dessa estrada?”. E Ele me respondeu: “A minha casa”.

Chegando lá, apresentou-me seu pai e pediu que eu ficasse com ele, fazendo-lhe companhia, mas que não me preocupasse, pois que a companhia de seu pai era tão boa quanto a dele. Indaguei aonde ele iria, e ele me respondeu que percorreria todo o caminho que fizemos novamente, convidando outros para se juntar a nós, antes que a trilha desaparecesse.


Leandro Dorneles