A SABEDORIA E O MOVIMENTO DAS NUVENS

Leandro Dorneles


Recentemente tive um problema com meu notebook e acabei perdendo muitos arquivos e fotos... utilizei um programa para recuperação de dados para resgatar alguma coisa e aproveitei para recuperar fotos do meu HD externo também. Resultado: com apenas 20% de escaneamento (não quis esperar mais) recuperei pouco mais de 5 mil fotos... E com isso 5 mil lembranças também. De minha mãe, de minha infância, dos meus amigos e de tantas pessoas que já passaram pela minha vida.

Certamente a nostalgia nos tira um pouco do centro, balança os sentimentos e as emoções, trazendo-nos saudades até da folha da árvore que um dia vimos cair...

No Sul, entre meados de outubro e novembro surge certa brisa leve e suave, um vento relativamente frio temperado com o calor dos raios de sol que brigam por espaço entre as nuvens primaveris do céu gaúcho, num movimento acelerado e constante, demonstrando que tudo é passageiro. Sim, uma geração vai e outra vem... e nada há de novo debaixo do Sol. Lembro-me de ficar sentado no quintal de minha mãe, com meu violão, observando as nuvens e buscando discernir a sabedoria que elas declaram... Eram tempos incríveis.

O tempo é instrumento de Deus para ensinar muitas coisas, aos que nele prestam atenção. Vivemos tão acelerados que desacostumamos a prestar atenção nos detalhes. Talvez, grande parte dessa geração sequer vislumbrou um dia o movimento das nuvens.

São tantas ambições, tantas metas, tudo pra ontem... E na expectativa do amanhã deixamos de viver o hoje e de curtir cada momento.

Estou envelhecendo... Não, não por conta das minhas cãs, das quais carrego desde os meus 14 anos. Não porque minha coluna já não seja mais a mesma, ou porque o cansaço das manhãs ficou mais pesado. Estou envelhecendo porque já consigo ver certos horizontes a minha frente que me fazem refletir sobre onde efetivamente quero chegar. Porque começo a rever minhas prioridades e impor meus próprios limites. Porque começo a ter certos temores e a rever certos conceitos.

Eu sei que tudo passa, tudo é efêmero, exceto as palavras de sabedoria quando penetram ao coração. Lembro-me - e constantemente as replico -, de certa frase que li na época do ‘falecido’ Orkut, em um contexto qualquer: “não permita que o urgente tome lugar do importante”. Não poderia ouvir nada melhor.

Em minha correria entre faculdade, trabalho e sonhos pessoais, uma coisa me faz parar o tempo: a batida à porta, de minha filha pedindo atenção. É onde eu descalço de mim e dar-lhe o tempo que ela precisa para viver sua plenitude infantil. Da multidão de livros e videoaulas ela me despe para dar papinha e voz às suas bonecas e personagens favoritos. Porque me recuso a deixar que a urgência dos meus anseios tome o lugar da tão rápida e singular infância da minha menina, ainda que isso me custe mais madrugadas em claro para compensar o atraso de outros compromissos.

E com isso, a reflexão de tantas outras coisas mais importantes que as urgências da minha vida. O envelhecer traz a maturidade para se reconciliar consigo e com os outros. Porque passamos a dar importância até àqueles que não nos acrescentavam muito. Se não percebemos essa necessidade é porque ainda vivemos na vaidade da nossa juventude que acredita durará para sempre.

Tudo isso pode ser aprendido pelo simples contemplar das nuvens em movimento. Quanto mais do ouvir as palavras de Deus que constantemente batem a porta, quando não, dos nossos sonhos e visões noturnas.

Que possamos aprender mais com as nuvens, com o silêncio, com as coisas importantes e com a inconfundível voz do Criador, porque Ele fala, a todo instante, ao nosso coração. Se O escutarmos, ganharemos a Eternidade ao Seu lado.




ONDE ESTARÁ A IGREJA DE CRISTO?

A cada dia tenho preocupadamente percebido tamanho distanciamento do "evangelho das mídias" com o evangelho de Cristo.

O "cristianismo" do século XXI está se distanciando e muito do Jesus da Bíblia, da vida apostólica e dos discípulos do sermão do Monte. Com isso, uma grande onda de gente perdida e confusa tem anunciado inúmeras atrocidades em nome de um Jesus que não conheceram. Tenho visto declarações de ódio em nome de Jesus, de ignorância e de descaso com a causa maior de termos sidos escolhidos para a Seara. Pessoas cada vez mais insensíveis, desaforadas, arrogantes e precipitadas nas palavras, com muita leitura inútil e pouco conhecimento Bíblico.

Cristãos racistas, homofóbicos (na correta e coerente utilização do termo), preconceituosos, murmuradores, rebeldes, insubordinados, carregados de ódio, mágoa, rancor e incredulidade, termos tão antagônicos a quem se declara discípulo de Cristo, revelando total incoerência e mancha no testemunho dAquele que se entregou na Cruz em favor da humanidade.

“Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele temos este mandamento: que quem ama a Deus, ame também a seu irmão” (1 João 4:20,21).

Espanta-me esse vergonhoso crescimento da “religião” (no sentido mais pejorativo da expressão) cristã, que cresce e se desenvolve sem raízes, tal como a casa edificada sobre a areia.

Um cristianismo sem conversão, sem experiência espiritual, jamais será cristianismo. Por isso tantas pessoas apostatando da fé. Uma fé, porém, sem substância, fruto da religiosidade doutrinária, não de um novo nascimento.

A institucionalização do cristianismo e sua transformação midiática em nome de uma prosperidade que se assenta em bases distorcidas da hermenêutica bíblica com o único intuito de se obter enriquecimento ilícito e status social tem sido mais danosa do que as pragas do Egito.

O que aconteceu com a simplicidade do evangelho? Onde estão as pessoas que se preocupam mais com as coisas do céu do que com as coisas da terra? Que se preocupam mais com pessoas do que com coisas?

Estamos vivendo um cristianismo capitalista onde servir a Deus se tornou motivo de barganha e atalho para uma falsa prosperidade. Perdemos o real conceito de vida próspera, iludidos pela luxúria e pela lascívia. Pessoas que jamais foram transformadas pela Palavra falando em Nome de um Deus desconhecido.

E o resultado não poderia ser mais desastroso: pessoas machucadas, frustradas, desiludidas, afastadas de Deus e do Seu Amor pela exposição e compreensão equivocada de um Reino que não pertence ao Céu, senão a esse mundo e ao próprio ventre.

Temos dado lugar ao misticismo religioso, simpatias, mantras e até maldições e ameaças em nome, na verdade, de si mesmo, querendo atribuir a Deus nossos devaneios.

Essa, todavia, não é a primeira vez que a Igreja se esfria e se contamina com o profano. Inúmeras vezes em que Deus precisou avivar sua Obra, fazendo com que Seu povo passasse por longos períodos de deserto e perseguição, até que se arrependessem dos seus maus caminhos. Um longo período de trevas, até que alguém tomasse alento, rasgasse suas vestes e se humilhasse perante o Criador, clamando por perdão e misericórdia ao Seu povo que rotineiramente erguia - e ainda ergue- seus bezerros de ouro para se curvar e adorar.

Estamos nos esfriando e não estamos percebendo. Estamos acomodados em nossa zona de conforto quando deveríamos estar guerreando contra as hostes espirituais nas regiões celestes, inconformados com o jeito que o mundo está, e falo como quem se inclui nessa realidade.

“[...] e não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que proveis qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. (Romanos 12:2)

Perdemos a faculdade de ser cristão sem ser religioso, de ser discípulo de Cristo no meio de pessoas que não O conhecem. Perdemos a pureza de viver sem precisar falar ou provar o que somos e o que temos experimentado da parte de Deus. Por quê? Porque quem muito fala pouco vive. Perdemos a habilidade de pregar sem falar, sufocar e impor.

Não, eu não vejo – ou muito pouco vejo – cristianismo no meio político, nas redes sociais, nos cultos televisivos, nas rádios, nas esquinas, nas praças ou nos ônibus. Vejo religiosidade, vejo a comercialização da fé, vejo o abuso da liberdade de crença para atacar, agredir e afastar as pessoas de Cristo. Vejo um evangelismo voltado para a instituição religiosa, para arrecadação de fundos e de números de membros.

Também não tenho visto cristianismo nos lares, no ambiente de trabalho, na escola ou faculdade. Antes, disputas de ego, de quem sabe mais, de quem tem a razão, de quem é o dono da verdade, da última palavra, o mais espiritual, o mais sábio ou o mais santo. Discussões inúteis e infindáveis, nada produtivas, senão para dar mal testemunho aos que ouvem.

Não foi assim que aprendi na minha conversão. Não foi com isso ou por isso que me tornei cristão. Tornei-me porque um dia eu senti a necessidade de saber minha identidade e meu propósito existencial. Tornei-me porque sentia falta de intimidade com um Deus que eu conhecia muito pouco. Tornei-me pela necessidade de ser preenchido e pela necessidade de ser socorrido. Busquei-o até encontrar.

“Porque eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que esperais. Então me invocareis, e ireis, e orareis a mim, e eu vos ouvirei. E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração” (Jeremias 29:11-13).

Não me tornei cristão com a promessa de uma vida fácil, de riquezas ou de imunidade às adversidades da vida. Graças a Deus isso nunca me foi oferecido e, se o fosse, esse jamais fora o meu desejo maior. Muito pelo contrário, minha fé fora provada ao extremo nas inúmeras provações e tribulações que eu passei, achando que, por ser cristão não as passaria. Aprendi a ser cristão sem qualquer moeda de troca.

“Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado; Todavia eu me alegrarei no Senhor; exultarei no Deus da minha salvação” (Habacuque 3:17,18).

Na caminhada da fé passei as maiores provações da minha vida. No meu momento de maior intimidade com Ele, passei muitas necessidades, juntamente com minha esposa. Fui acometido com muitas enfermidades e inúmeras vezes humilhado por passar por tantas adversidades sendo cristão. Mas a minha fé estava alicerçada na Rocha e me sustentava em todas as minhas angústias. Porque eu conhecia a Quem eu servia e entendia perfeitamente que o Caminho era apertado, cheio de espinhos, e poucos são os que conseguem passar por ele.

“Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (João 16:33).

Aprendi lendo diariamente a Bíblia e nela meditando, conversando com Deus no recôndito do meu quarto, clamando, chorando, me humilhando e contemplando o Seu Amor e cuidado.

“Bem-aventurados os que guardam os seus testemunhos, e que o buscam com todo o coração. [...] Com que purificará o jovem o seu caminho? Observando-o conforme a tua palavra” (Salmos 119:2 e 9).

Meu conhecimento era fruto de muita leitura e de experiência real com Deus. O que Dele sei não aprendi na faculdade, numa instituição, num livro de autoajuda ou nas irritantes correntes das redes sociais, mas na experiência de caminhar com Ele e com pessoas cujo coração se voltara exclusivamente a Ele.

“Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra” (Oséias 6:3).

Mas o que vejo hoje são pessoas falando de algo que nunca experimentaram ou que há muito deixaram de experimentar. Conhecimento raso, falacioso, eivado de misticismo e infantilidade. Pessoas tão carentes de um toque divino que até o inventam para acalentar suas almas vazias.

Eu sei, e estou certo disso, de que Deus ainda avivará a Sua Obra novamente, provando e purificando a Igreja no fogo, como o ouro. Sem perseguição a Igreja não cresce ainda que seus templos estejam lotados.

Onde estará a Igreja de Cristo?

“[...] aviva, ó Senhor, a tua obra no meio dos anos, no meio dos anos faze-a conhecida [...]” (Habacuque 3:2b)



Leandro Dorneles

A CONFISSÃO DA CULPA: A RESPONSABILIDADE DE QUEM A OUVE E O DISCERNIMENTO DE QUEM A CONFESSA


Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis [...]. Tiago 5:16

Certa vez, há muitos anos (mas não tantos assim) resolvi conversar com um líder espiritual, que me acompanhava em muitas obras, sobre algumas lutas e fraquezas que me acometiam mesmo após meus primeiros anos de conversão cristã. Certas marcas que nasceram antes desse tempo e que teimavam em se perpetuar mesmo após uma total mudança de valores em minha vida. Espinhos que ainda me machucavam, manchas que não se apagavam, hábitos que não conseguia mudar, vícios dos quais não conseguia a total libertação. Chamei o líder para um espaço e momento reservados, expus-lhe minhas inquietações e pedi que orasse e intercedesse por mim. Mais do que isso, que me aconselhasse sobre como lidar com tais situações, afinal, falava com alguém de muito mais idade que eu e de muito mais tempo de conversão. Como Eliú, amigo de Jó, considerei precipitadamente que a idade avançada refletiria necessariamente sabedoria. Infelizmente Eliú estava certo em suas afirmações: não é a idade que torna o homem sábio, mas a inspiração que ele recebe do Todo-Poderoso (Jó 32:6-9).

Alguns dias depois, ao ministrar uma família em crise, fui surpreendido e duramente contestado por alguém do rol mais íntimo daquele líder que tentou expor aos presentes minhas confissões (das quais só o líder sabia), usando-as como forma de rechaçar meus conselhos. Isto porque tal pessoa se identificava com as fraquezas que aquela estava passando e achava que ela estava certa. Em nada, porém, fui intimidado (embora surpreso), pois os presentes também eram do meu rol íntimo e entre eles já era costume compartilharmos as fraquezas uns dos outros, logo, nenhuma novidade houve ao que de mim foi exposto.

Ao descobrir que tal exposição houvera sido dada por aquele a quem confiei meus medos e angústias, minha culpa, meus pecados, quase me desviei do Caminho.

Infelizmente essa não foi a única vez que vi minhas confissões expostas a terceiros, pessoas as quais seletivamente compartilhara minha vida, esperando consolo, conforto, apoio e orientação. Volta e meia a história se repete e alguém que considerávamos apto a guardar segredos e compartilhar experiências enxerga na fraqueza alheia um meio de se mostrar superior, expondo nossas mais íntimas confissões na presença de terceiros, às vezes, no calor de um debate. E isso me trouxe grande preocupação e reflexão sobre os limites da intimidade que devemos ter em todos os círculos sociais que transitamos. E na igreja (aqui entendida como pessoas que professam a mesma fé, não necessariamente a instituição), principalmente no que se refere à confissão, a quem compartilhar e a responsabilidade daquele que aconselha ou simplesmente ouve.

É certo, porém, que tais experiências me trouxeram grandes lições, revelando a máxima de que “todas as coisas cooperam juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, dos que são chamados segundo o Seu propósito” (Romanos 8:28).

Comecei então a refletir sobre a responsabilidade que Deus confia a uma pessoa para representá-lo, para ser seu mensageiro, seu portador de boas novas, seu discípulo. E pensei nas diversas vidas que Deus já permitiu vir até mim, expondo seus pensamentos, atitudes e sentimentos mais íntimos, suas angústias e necessidades, suas fraquezas, seus pecados e em como cuidadosamente aconselhei, na medida da minha experiência e do meu conhecimento da Palavra e do sigilo que necessitei dar ao que ouvi. Senti tanto temor pelo peso da responsabilidade que recaia sobre meus ombros e como eu deveria lidar com tais confissões enquanto ouvinte e ministrante da Palavra de Deus.

Obviamente que não sou o único. Assim é o dia-a-dia de milhares de líderes espirituais, de advogados, médicos, psicólogos e tantos outros profissionais ou pessoas da confiança de alguém, que sabem a responsabilidade do sigilo da informação que recebem. E aqui se revela o caráter ético e o compromisso destas pessoas.

Hoje, vemos os efeitos da exposição da intimidade e privacidade (algumas vezes voluntária) de muitas pessoas nas mídias sociais, por pessoas que tinham sua confiança e por outras que lucram com tal exposição alheia: atos e consequências que extrapolam os limites da dignidade e da ética, cujos efeitos foram catastróficos, desde um processo judicial até o extremo do suicídio. Pessoas que confiaram a outrem seus segredos mais íntimos, seus desejos mais profundos, suas fantasias, suas pensamentos polêmicos, suas fraquezas... e foram surpreendidas com sua exposição nas mídias sociais. Por outro lado, percebo como muitas pessoas não se importam com isso e expõem detalhadamente sua vida privada: o que fez ontem, há 5 minutos, o que vestiu, o que comeu, para onde foi, o que comprou, com quem saiu... não existe um único evento de seu cotidiano que fuja da exposição, com fotos, vídeos e declarações. Parece não haver limites para estes, até o dia em que são surpreendidos por aqueles que os observavam, para bem ou mal.

Mas afinal, por que temos tanta necessidade de compartilhar o que se passa em nossas mentes e corações?

A psicologia dará uma resposta, também a psicanálise, a teologia, a filosofia... cada uma delimitada por seu objeto, sua extensão, origem e efeitos na esfera do comportamento que lhe caiba analisar. Portanto, a partir daqui me aterei somente ao que concerne à fé cristã e ao seu objeto aqui exposto: a confissão dos pecados.

A confissão dos pecados é a exteriorização do íntimo pela necessidade de libertação do sentimento de culpa, de arrependimento diante da acusação, de reconhecimento diante da sanção da lei previamente estabelecida e da necessidade de justificação e absolvição diante do juízo divino. Mais importante ainda, a confissão dos pecados vem como declaração de amor ao ofendido buscando o seu perdão.

A confissão liberta e traz cura interior pelo reconhecimento de sua fraqueza ao mesmo tempo em que revela o desejo de ser liberto e curado (arrependimento). Fazendo um paralelo ao direito penal, podemos afirmar que o perdão divino é a sentença de absolvição da culpa, não porque haja um vício no ato praticado que a justifique; não porque o ato seja atípico ou que o sujeito praticante seja inimputável; não porque tal ato resulte em excludente de ilicitude ou de culpabilidade. Nem mesmo a absolvição resulta da aplicação do princípio da insignificância. O perdão dos pecados é uma consequência do princípio da substitutividade divina mediante três atos: fé, arrependimento e confissão. Cristo ao ser crucificado tornou-se substituto dos transgressores, recebendo em si o castigo, a sentença que àqueles estava proposta (Isaías 53:4-5). Cristo assume diante de Deus a responsabilidade por nossos pecados, uma única vez e para sempre, a fim de que possamos receber o perdão divino “SE” crermos Nele e no que Ele fez; arrependermo-nos dos nossos pecados, - revelados mediante a exposição da Palavra da Verdade e da testificação do Espírito de Deus que fala ao nosso coração para convencimento desta Verdade- e confessarmos nossa culpa e total impossibilidade de se autojustificar. Uma vez confessado, Deus dá a sentença favorável, sem possibilidade de que o acusador (diabo) recorra, fazendo coisa julgada material.

“Porque serei misericordioso para com suas iniquidades, e de seus pecados não me lembrarei mais” (Hebreus 8.12).

Quando confessamos nossas culpas estamos reconhecendo que temos conhecimento da verdade e que cremos nela de tal forma a nos humilhar diante de Deus, rejeitando tais condutas réprobas e reconhecendo Sua Graça (i.e. favor imerecido) e amor no sacrifício de Cristo em nosso lugar. Quando confessamos nossas culpas, estamos declarando que Cristo não morreu em vão por nós e que desejamos ser como Ele: agradando a Deus em todo o tempo.

Por isso nos sentimos bem quando nos confessamos. Mas essa confissão pode virar nossa própria sentença condenatória se não estivermos certos de a quem estamos confessando, se não tivermos confiança em quem ouve nossos segredos, nossos medos, angústias, fraquezas... e se não estivermos plenamente convictos de que quem nos ouve pode de alguma forma nos ajudar. E eis o que tenho visto e aprendido:

Há certas coisas que somente Deus pode suportar ouvir, já que Ele está destituído de qualquer parcialidade ou preconceito, jamais lançando em rosto nossas fraquezas e pecados confessados. São problemas que dizem respeito ao seu relacionamento com Deus.

Há outras que grandes amigos ou a própria família podem até suportar. Todavia, haverá situações em que talvez não tenham a melhor palavra ou conselho para lhe dar, porque cada um só dá o que tem e, não sendo eles cristãos, o efeito pode ser muito negativo quando se tratar de conflitos envolvendo princípios espirituais. Ou, porque o pecado confessado esteja intrinsecamente ligado a eles ou a algum deles. Para estes casos, a experiência faz muita diferença. E o papel do líder espiritual experiente e experimentado na Palavra vem para suprir essa lacuna: ouvir o pecado, declarar o perdão pela Palavra de Deus (João 20:23) e orientar sobre como proceder em relação ao que foi confessado, como, por exemplo, propiciar um ambiente favorável para que o ofendido possa ouvir abertamente o seu ofensor, dando-lhes a oportunidade para a reconciliação.

E há outras, ainda, que requerem uma ajuda profissional, paralelamente à espiritual. Casos como depressão, traumas profundos que impõem restrições à vida social, violência doméstica, e outros cuja gravidade pode afetar a integridade física, sua ou de terceiros, requer, às vezes, além de aconselhamento o uso de medicação, ou até de medidas judiciais, afinal, nem tudo é espiritual. “O que é da carne é carne, e o que é do Espírito é espírito”. Precisamos aprender a separar as coisas. Todavia, mesmo nestes casos, nada impede que um líder espiritual de confiança possa ouvi-lo e orientar, ajudando-o a discernir se a questão é unicamente espiritual ou não e oferecendo-lhe o devido encaminhamento.

Quanto ao líder espiritual ou um irmão na fé de confiança, é certo que tanto a responsabilidade pelo sigilo da informação quanto à responsabilidade pelo conselho que será dado serão deles cobradas naquele Dia (do julgamento). Portanto, se não souber o que falar ou não tiver convicção do que deva ser dito, por favor, seja sábio e não diga nada, para que não seja reprovado diante de Deus como os amigos de Jó e posteriormente envergonhado.  E se não consegue guardar para si o que ouviu abstenha-se de ouvir para também não pecar. Porque por cada palavra precipitada que for dita lhe será cobrado naquele Dia (Mateus 12:36-37).

Independentemente de a quem você compartilhará suas fraquezas, saiba que Deus sempre será o maior interessado em ouvi-las, porque Ele sempre tem uma boa palavra para nos dar na hora da angústia.

“Confessei-te o meu pecado, e a minha iniquidade não encobri. Disse eu: Confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a culpa do meu pecado” (Salmo 32:5).

Que possamos nos achegar a Deus em tempo oportuno para confessar, arrepender-se e receber Dele o perdão e o Amor que o Pai já nos deu por meio de Cristo.

“Se dissermos que não temos pecado nenhum, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1:8-9).

O Pai te ama! Achegue-se a Ele com humildade e coração sincero e Ele se achegará a você!


“O sacrifício aceitável a Deus é o espírito quebrantado; ao coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” (Salmo 51:17).

O ANDARILHO E O VIAJANTE (O CAMINHO)


Sempre fui curioso com muitas coisas. Sempre quis aprender muitas coisas. Conhecer e inquirir, saber até onde poderia chegar, até onde existe para se chegar.

Certa vez encontrei um andarilho que me falou de um lugar distante, de que poucos tinham encontrado e poucos sabiam como chegar. Interessei-me pela descrição do lugar e decidi que seria um desses poucos que lá chegariam, só não sabia como. Foi quando ele prontamente se propôs a me acompanhar. Disse que conhecia muito bem o caminho e que sem ele certamente eu não conseguiria chegar lá. Notei alguns machucados em suas mãos e pés, e as vestes também não eram das melhores. Todavia, algo nele me passava confiança. Entusiasmado, me despedi de amigos e familiares, coloquei minha mochila nas costas e saí, rumo a um lugar desconhecido, mas com boas referências daquele andarilho e de outros que também davam bom testemunho.

Para minha surpresa, logo no início da trilha vi diversos aventureiros seguindo a mesma direção. Parecia que o lugar era realmente bom. Vi pessoas com todo tipo de equipamento e suprimento e percebi que o caminho não seria curto e nem fácil também.

O andarilho me fazia companhia e também conversava com alguns no meio do caminho que lhe davam atenção. Muitos o ignoravam e o achavam meio louco, procurando manter certa distância. Outros pareciam ter mais intimidade com ele.

No segundo dia, ao anoitecer, uma forte chuva desceu, com ventos fortes e trovões. Muitos ficaram assustados e desistiram da viagem. Ligavam para familiares e pediam para que os levassem de volta às suas casas. Outros pegaram carona e também voltaram. Parecia certo não correr tantos riscos por causa de um lugar desconhecido. Mas eu estava entusiasmado e prossegui.

Confesso que fiquei com medo e pensei em desistir também. Mas a companhia do andarilho me dava ânimo e confiança, por saber que tinha um aliado experiente e muito seguro acerca do caminho e do que dele esperar. Mais tarde ele explicara que a mudança repentina do tempo era habitual naquela viagem e seria muito comum ao longo da jornada, o que também me acalmou.

Ao amanhecer, a chuva havia cessado e um dia ensolarado surgia. Com o tempo bom a caminhada parecia ser bem mais rápida, mas a chuva e a ventania geralmente apareciam nos trechos mais perigosos e com mais obstáculos, o que nos obrigava a passar com mais veemência e sem pestanejar, caso contrário, seríamos tragados pelo mau tempo. Quando o medo tentava me dominar eu olhava para a face do andarilho, pois ele sempre apresentava uma expressão de coragem e determinação, como se tivesse controle sobre toda a situação.

E andando contemplei muitas paisagens belas. Umas não tão belas assim. Os dias passavam rapidamente e na medida em que avançávamos, também percebi que o número de viajantes diminuía. Uns paravam a beira do caminho, cansados e decidiam voltar. Lembravam dos amigos, da família, do conforto e bem estar do seu lar. Para que abrir mão de tudo isso por um lugar que ninguém sabia, de fato, como era? Exceto o andarilho que dizia conhecer o lugar. Outros desfaleciam, sempre isolados dos demais, aparentando não conseguir avançar mais e também não queriam ser ajudados. Falavam algo sobre o mérito de conseguir chegar com seus próprios esforços, coisa que não entendi muito bem. Alguns estavam aguentando bem a jornada, até que lhes aparecia um amigo ou parente tentando convencê-los de que era loucura continuar daquele jeito e ofereciam-lhe carona para voltar. Muitos desistiam e voltavam, aparentando certa frustração.

Realmente não era um caminho muito fácil. Os pés doíam muito e o cansaço era contínuo. Não sabia como havia suportado caminhar tanto, naquelas condições. Mas, repito, eu não estava só, o que me motivava sempre a continuar. Não sei de onde saía tanta comida daquela tão pequena mochila que o andarilho carregava. Mas sempre era o suficiente pra nós dois. Imaginava que ele deveria sair nas madrugadas, adentrando nas matas a beira do caminho para colher frutas e encher as garrafinhas de água.

Já fazia muito tempo que estávamos na estrada. Às vezes, parecia que ela não tinha fim e nunca chegaríamos ao tal lugar maravilhoso. Até que, num belo dia, distraído com a paisagem bucólica que nos cercava, avistei um pequeno jardim a beira do caminho e fiquei tentado a entrar nele para descansar, já que o jardim era rodeado de árvores frutíferas que faziam uma bela sombra a quem se deitasse em seus pés, e no seu recôndito uma pequena fonte, límpida e cristalina. Pensei até ser aquele o lugar que procurávamos. Mas o andarilho afirmava que o lugar que estávamos procurando era incomparável a qualquer outro e não achou uma boa ideia parar. Mas eu insisti. Eu estava muito cansado, com fome e determinado a aproveitar o conforto que aquele pequeno jardim oferecia. Olhei para frente e vi que a estrada parecia ser sempre reta e ele já havia me dito que estávamos a mais da metade do caminho.

Ele insistiu que continuássemos, mas eu estava decidido a parar naquele lugar e descansar. Convidei-o a ficar comigo e descansar também, mas ele se recusou e disse que seguiria em frente. Despedimo-nos enquanto eu o convencia de que o alcançaria mais tarde, pois já saberia o caminho daquele ponto em diante. Confesso que não me senti muito bem com a nossa separação, e o semblante dele não era melhor que o meu.

Eu sempre acreditei que tinha certeza para onde eu estava indo e que não precisaria ter pressa para chegar, porque certamente eu chegaria lá.

A presunção talvez tenha sido minha maior inimiga nesse tempo. Porque achando estar perto, não apressei meus passos e me distraí com a visão das muitas árvores frutíferas naquele pequeno jardim a beira do caminho, seus frutos e suas sombras. Parei, comi e descansei. Sem pressa de continuar. E encontrei nova inimiga: a comodidade.

Assentei-me sob a sombra das árvores, cortei lenha, construí uma cabana e repousei como quem repousa numa casa de verão.

Observei as nuvens e delas recitei provérbios e extraí poesias e canções. Afinal, para que a pressa? O importante era chegar até o fim, e não o chegar primeiro! Encontrei umas poucas ovelhas ao redor do jardim e criei um pequeno aprisco. Agasalhei-me de lã e passei a decorar minha cabana com belos enfeites e adereços. Esqueci-me até pra onde estava indo. Só sentia falta da companhia do andarilho.

Acordei num belo dia e senti dores nas articulações. Minha hérnia de disco começara a incomodar. As pernas já não tinham mais a mesma resistência de quando eu seguidamente trilhava pela apertada e ensolarada estrada. Não havia percebido que eu estava naquele jardim já há muito tempo. Muito tempo, mesmo!

Lembrei-me do meu amigo andarilho e só pensava que ele já teria chegado ao lugar que tanto me falava há muito tempo e que talvez nem se lembrasse mais de mim.

Voltei-me novamente para o caminho, e, ao dar os primeiros passos, a velhice me afrontou. Olhei para trás, para tudo o que eu já havia andado e deixado para trás... como se fora ontem, embora houvesse se passado mais de uma década. Vi pessoas conhecidas andando na estrada, sem saber muito bem para onde ir. Também vi os que nela morriam, sozinhos, encostados em árvores ou pedras. Curiosamente vi alguns poucos que outrora tinha desistido e até alguns da minha casa e da minha cidade, que zombaram de mim quando parti com o andarilho. Avistei alguns que eu sabia jamais chegariam ao final dela, pois que, como eu, terminavam seus dias acampados à beira do caminho, obcecados pela sombra das árvores frutíferas e pelo conforto dos jardins passageiros. E me perguntei se eu, um dia, também chegaria.

Estava ficando velho. A saúde já não era a de um adolescente, como quando comecei a andar pelo caminho. Sabia que precisava retornar à trilha. Mas e a minha cabana? E o meu rebanho? E tudo que construí? Acaso, deveria deixar tudo? Não seria uma atitude irresponsável? Porque comigo certamente não poderia carregar. E passei a ficar dividido entre o lar que eu havia construído naquele lindo jardim a beira do caminho e a incerteza de chegar até o fim daquela pedregosa estrada.

Percebi que, sem a expectativa de chegar ao fim dela, nada do que eu havia construído e nada do que eu havia sacrificado ao longo desses anos todos teria sentido. Só tinha sentido porque havia um fim maior a ser perseguido, embora eu já não soubesse mais qual.

E o que havia, afinal, no fim da estrada? Eu já nem lembrava mais. Por isso mesmo precisava voltar para ela. Para saber por que gastei tanto tempo nela andando. E a saudade do amigo viajante me incomodava mais do que qualquer coisa.

Percebi outro perigo: que o percurso tinha tempo e prazo determinados para ser trilhado, pois que as marcas da trilha sumiriam com o tempo, até que ninguém mais pudesse encontrá-la. Um dos que passara por mim gritava aos demais: “Corramos!”

No meio do caminho, me senti sozinho e com medo. Não estava mais tão certo se ainda estava no mesmo caminho que iniciei. Foi quando tornei a encontrar meu amigo, o andarilho que tanto me incentivou a pegar a estrada. Esteve comigo o tempo todo, até o momento em que parei naquele jardim. De lá ele seguiu viagem e eu fiquei. Quando o vi novamente, era como se ele estivesse ficado atrás daquele jardim o tempo todo, esperando que eu me animasse a pegar a estrada novamente, pois ele a conhecia como ninguém e sabia que sem ele eu jamais conseguiria chegar.

Pedi desculpas por ter me distraído no caminho e estacionado. Atrasei nossa viagem. Perdi momentos maravilhosos ao seu lado. Deixei-o sozinho por muito tempo, pois quis descansar e apreciar aquele jardim. Afinal, eu nunca havia estado num jardim daquele antes.

Ele prontamente sorriu e começou a caminhar comigo, explicando-me os obstáculos que eu ainda encontraria na jornada e também o perigo das distrações à beira do caminho, o risco de jamais chegar ao final. Como eu estava mais velho, sentiria com mais gravidade os obstáculos e teria que ter muito mais paciência do que antes se quisesse ir até o fim.

Andamos por muitos dias, semanas, meses... E mais alguns anos. A noção de proximidade dele não parecia bater muito com a minha. Durante o dia o sol era muito forte e a noite o frio era de congelar, como num deserto. Confesso que sentia falta da comodidade que o jardim me oferecera no tempo em que nele estive. Sua companhia, no entanto, me fazia esquecer o tempo e suas intempéries. Ele me contava muitas histórias sobre o lugar que estávamos procurando, algumas eu até achava que ele inventava só pra me alegrar e dar esperança de continuar. De tão extraordinárias e mirabolantes parecia impossível imaginá-las como sendo reais.

Construímos uma bela amizade, e laços mais fortes que aqueles ditos sanguíneos. Cheguei ao ponto de ousadamente declarar-lhe que sua companhia me fazia tão bem que eu já não me importava mais em chegar rapidamente ao fim daquela estrada. De que o que teria lá poderia até ser maravilhoso, como ele afirmava, mas não saberia se seria melhor do que estar em sua companhia.

Quando finalmente estávamos a uma curta distância do final do caminho, questionei-o: “Afinal, o que tem mesmo no fim dessa estrada?”. E Ele me respondeu: “A minha casa”.

Chegando lá, apresentou-me seu pai e pediu que eu ficasse com ele, fazendo-lhe companhia, mas que não me preocupasse, pois que a companhia de seu pai era tão boa quanto a dele. Indaguei aonde ele iria, e ele me respondeu que percorreria todo o caminho que fizemos novamente, convidando outros para se juntar a nós, antes que a trilha desaparecesse.


Leandro Dorneles

OS INIMIGOS DA FÉ - PARTE 1: FRUSTRAÇÃO



Talvez o maior empecilho para se ter fé seja o medo da frustração. Geralmente este medo está ligado àqueles que um dia “tentaram acreditar” em “algo” ou “alguém” e ficaram decepcionados.

A partir da experiência da frustração tendemos a inclinar negativamente para a culpa, ou de si mesmo (falta de merecimento) ou do outro: descrença e perda da confiança. Isso porque humanamente temos a necessidade de tentar compreender e explicar os fenômenos que nos envolvem direta e indiretamente, para então alcançarmos certa razão ou certo posicionamento que nos defenda de uma nova frustração.

Para um cientista a frustração de um resultado esperado e até então preciso pode levá-lo de volta ao ponto zero da sua experiência, ou mesmo, de desistir de sua teoria. Na caminhada da fé isso também pode acontecer... e muito acontece.

A respeito da fé, tenho por mim que a frustração ocorre pela falta de correção de alguns conceitos e de algumas expectativas e experiências erroneamente apreendidas ou impostas pela institucionalização daquilo que denominamos fé. Sem estes ajustes temo que jamais superemos o problema da frustração nestes termos.

Estamos rodeados de doutrinas de confissão positiva que colocam a relação entre Deus e o homem como uma relação contratual bilateral onde cada um deve cumprir a sua parte na relação e, assim sendo, poderá cobrar que o outro também cumpra com a sua parte ou até mesmo romper “justificadamente” a relação por “exceção de contrato não cumprido”.

Sei que este é um campo perigoso para se falar, portanto, vou resumir da seguinte forma essa “teologia”: se eu fizer a minha parte Deus é ‘obrigado’ (sim, é isso mesmo) a cumprir a parte Dele, já que Ele por sua natureza e por sua Palavra (o texto bíblico interpretado no sentido de relação obrigacional, onerosa ou não) não pode mentir nem se arrepender.

A partir do exposto acima poderemos pensar os diversos exemplos e as diversas áreas da doutrina da fé em que isso acontece, sendo os exemplos mais recorrentes nas áreas financeira, cura e libertação.

Quando Deus não “cumpre” com a sua obrigação previamente acordada (pelo texto bíblico ou pela pregação/doutrina do líder/instituição) e, pior que isso, não somente descumpre como também não indeniza nem se justifica, acontece o fenômeno da frustração.

A frustração da fé, portanto, é o resultado de uma falsa expectativa (dolosa ou culposa) em relação ao caráter de Deus e a correta interpretação de Suas Palavras, mas muito mais em relação ao Seu caráter já que, pelo conhecimento deste, torna-se mais fácil a compreensão do que Ele, de fato, disse e diz. Ela também pode derivar de uma suposta expectativa da parte de Deus em relação a nossa pessoa, o que abordarei mais tarde.

A partir da experiência da frustração somos tentados a escolher um entre três caminhos:

1) continuar crendo e confiando que a vontade de Deus é sempre boa, perfeita e agradável;
2) arranjar uma desculpa para o resultado ou criar uma nova doutrina com novos requisitos que justifiquem o resultado; ou
3) culpar a Deus por sua infidelidade e resolver (terminar) o “contrato”.

O problema da opção 2 é que não enfrentamos o resultado e daí a necessidade de afirmar que aquilo, de fato, funciona, mas o “método” estava errado. O resultado disso será uma longa caminhada de frustrações e invenções de novos métodos, até o momento em que ficaremos tão machucados (além de machucar outros que serão persuadidos a fazer o mesmo) que o estrago final será maior e mais doloroso.

O problema da opção 3 é exatamente a perda da fé e a falta de confiança em Deus, o que nos levará a um caminho totalmente distante de qualquer expectativa de relacionamento com Deus que tenha por base a fé e a confiança.

O que justifica a opção 1 como verdadeira é um princípio tão esquecido pela doutrina positiva: a soberania de Deus.

A soberania de Deus coloca um limite na nossa relação com Ele por levar em conta o fato de que não estamos em posição de igualdade com Deus em nenhum aspecto, muito menos na compreensão do que é melhor para nós e para os outros, tal qual um pai em relação a seus filhos pequenos. Há coisas que somos incapazes de compreender e que, portanto, deve nos levar a um estado de confiança e de sujeição às escolhas que Deus faz. Ele é maior do que nós.

Do princípio da soberania de Deus decorrem diversos outros princípios ou subprincípios que eu não posso ignorar:

- Os pensamentos de Deus são mais elevados que os meus à nem sempre o que eu considero o melhor é necessariamente o melhor.
- Os caminhos de Deus são mais altos que os meus à a maneira como as coisas acontecem nem sempre será aquela que achamos que seria.
- A vida e a morte estão nas mãos de Deus à independente da forma, dos métodos e dos porquês, no final é Deus quem decide (vontade efetiva ou vontade permissiva) que alguém viva ou deixe de viver. Isso, no entanto, não nos isenta da nossa responsabilidade e colaboração para com o resultado.
- Somente Deus conhece o coração dos homens à nosso senso de justiça divina muitas vezes irá falhar, porque julgamos segundo a aparência, mas Deus segundo o intento do coração.
- Há tempo para todo propósito debaixo do céu à Deus não conta o tempo como nós contamos. Para Ele não existe atraso, pois tudo o que faz é sempre na hora certa. Também é verdade que nossas ações podem influenciar no tempo que Deus tem para os acontecimentos em nossas vidas, mas isso também já está previsto em Sua presciência, logo, nada foge do Seu controle.
- Não sabemos pedir à As motivações humanas tendem sempre às mais egoístas possíveis. Deus não nos dá tudo o que queremos, mas certamente dará tudo o que for preciso, se O pedirmos. E às vezes, não é que Deus não nos ouviu, mas que nós mesmos não percebemos e não avaliamos o que estávamos pedindo. Deus não atende a vaidades.

Tantos outros são os princípios que poderíamos extrair. O rol é meramente exemplificativo.

Estes princípios dizem respeito ao caráter de Deus e a falta de compreensão ou aceitação destes é medida pelo grau de aproximação que desenvolvemos em relação a Deus, em nosso relacionamento diário com o Criador. Na medida em que nos aproximamos Dele, mais o conhecemos, e conhecendo-O, mais confiamos. Essa confiança, algumas vezes chamada também de esperança, impede de nos frustrarmos com o Pai, independente do que aconteça. É verdade que jamais alcançaremos a perfeição da fé, mas ela pode (e deve) se desenvolver a cada dia, quando decidimos andar e aprender com Ele.

A base dessa relação deve ser sempre o Amor e a Fé e nunca uma relação contratual onerosa ou baseada na troca ou no mérito, pois Deus não é um empresário, nem um mercenário, tampouco um agiota, e o seu Reino não é um banco, nem uma caderneta de poupança ou um cassino. A criatura serve aos propósitos do Criador e nunca o contrário. Barganhar com Deus significa não conhecê-lo e isso resultará, mais cedo ou mais tarde, em uma grande decepção.

A fé é o instrumento de comunicação com Deus. Não é, portanto, uma fé em qualquer coisa, mas em Deus, na Sua Pessoa e, em grau maior, na Sua Palavra (escrita, mas apenas revelada àquele que o busca com um coração sincero). Alguém disse uma vez que a fé é crer que Deus fará aquilo que Ele disse em Sua Palavra que faria. A partir daí percebemos porque muitas pessoas se frustram com Deus, pois sua fé sempre fora centrada na pessoa de um líder ou de uma instituição, dois elementos imperfeitos como nós, e nunca em Deus, totalmente perfeito. Muitas pessoas se frustraram com Deus porque nunca estabeleceram um relacionamento com Ele, sempre mediados por diversos outros elementos. Faltou-lhes a intimidade para desenvolver a fé e a confiança em Deus.

Frustração na Relação Meritocrática

O outro lado da frustração está na equivocada avaliação que fazemos de nós mesmos e isso tem uma influência externa muito forte e determinante.

Aquele que não alcança o que espera de Deus ou dos homens, pode se diminuir a ponto de acreditar que toda relação é sempre baseada em mérito. Não são poucos os que têm medo de acreditar que Deus quer abençoá-los porque a consciência de seus defeitos e pecados lhes traz um peso de acusação do qual se torna inconcebível sentir-se merecedor da bondade de Deus ou do amor das pessoas. Estes vivem uma vida inteira tentando agradar a todos, superar-se em tudo, ser sempre o melhor para ver se, porventura, alguém os ame ou os aceite. São repletos de boas obras de caridade, são extremamente prestativos, mas o mote de suas ações nada mais é do que o desejo de aprovação. Temem ter fé porque esta não pode ser medida por merecimento ou troca, unicamente por graça e amor.

Quantas vezes deixamos de orar e pedir algo a Deus porque não nos sentimos merecedores, porque nossos pecados e nossas falhas diárias dizem que Deus jamais nos daria sem merecimento. E isso, como já disse, tem forte influência externa: Filhos amaldiçoados pelos pais, sempre cobrados e lançados em rosto suas derrotas e incapacidades. Nunca receberam elogios, somente críticas, comparações e cobranças. Futuramente transportam essa percepção para o relacionamento com Deus e veem a Este sempre como um Ser que está sempre decepcionado com eles, que está sempre em busca de defeitos e pecados para acusá-los. Não ousam pedir-Lhe nada, senão em favor dos outros. Vivem com medo, desconfiam de toda intenção, se esforçam além das forças para merecer algo e sua confiança está na sua capacidade humana de agir e de se superar. Eles nunca têm paz consigo mesmos. Existe ainda a influência espiritual, pois está escrito que o diabo trabalha dia e noite como nosso acusador.

E nesta mesma relação meritocrática surgem os que se consideram bons o suficiente para serem abençoados. Suas boas obras são a resposta para alcançar o olhar e o favor de Deus e dos homens. Sentem-se extremamente ofendidos quando pessoas não tão boas quanto eles alcançam graças, sucesso, prosperidade, prêmios e aprovações, principalmente se eles mesmos não o receberam. Tendem a considerar-se melhor que os outros.

O problema da relação meritocrática quando falamos de Fé, mais propriamente no cristianismo, é porque esse conceito é totalmente antagônico a Cruz de Cristo.

A Cruz de Cristo vem revelar exatamente a incapacidade humana de merecer salvação e o favor de Deus já que toda a criação humana se revelou má e pecadora. A Lei, antecessora da Cruz provou isso, pois ninguém conseguiu viver em total obediência à Lei. Na verdade é exatamente isto o que está escrito: que a Lei veio para revelar o pecado. Ela prometia graça e salvação por mérito, mas ninguém conseguiu alcançá-lo. Por isso a Cruz de Cristo, para que um terceiro espontaneamente pagasse a dívida e nos trouxesse salvação e graça da parte de Deus, sendo, assim, o único a cumprir e de forma inerravel a totalidade da Lei, para então sobre ela triunfar em favor de todos, substituindo-a por Si mesmo.

Qualquer ato que busque merecimento diante de Deus é inimigo da Cruz de Cristo. Por isso os que buscam a justificação pela Lei estão destituídos da Graça de Deus, pois são relações naturalmente contrárias entre si. A Lei diz que o homem alcança a salvação por suas próprias obras e esforços. A Cruz diz que o homem é imerecedor da salvação por sua natureza predominantemente pecaminosa e egoísta, sendo gratuitamente conciliado e justificado mediante a Graça (favor imerecido) advinda do sacrifício de um terceiro que nada devia diante de Deus e que fora por Ele mesmo enviado: Cristo.

Ora, se não há mérito, logo, não há como se justificar diante de Deus por qualquer ação ou omissão, senão que Alguém lhe justifique, assumindo o seu lugar. E se a justificação é por um terceiro dado pelo próprio Deus, que tipo de relacionamento pode haver então entre Deus e o homem, senão aquela baseada em amor, confiança e gratidão? Se a vontade de Deus fosse a de apontar erros e pecados para nossa condenação a Lei já era suficiente pra isso. Se, pois, quando Ele podia nos condenar não o fez, muito mais agora anulando toda a nossa dívida para com Ele, não levando em conta nenhum de nossos pecados ou deficiências, a nós, os que cremos! A condição estabelecida para que Ele nos ouça e de bom grado interceda em nosso favor não é e nunca foi por mérito, mas por fé no que Ele já fez e pela confiança de que Ele é bom.

A Soberania de Deus não dará tudo o que eu quero e o que peço, porque ela trabalha em favor de algo maior do que eu. Mas o Amor de Deus dará tudo o que eu preciso e muito mais do que eu mereço ou desejo.

Duas coisas influenciam diretamente a ação de Deus na vida humana: nossa fé e a Sua Soberania. Essas duas coisas podem conviver perfeitamente, mesmo que o resultado de uma seja diferente do da outra. A oração de quem tem fé influencia as decisões divinas, porque Deus decidiu nos fazer partícipes do Seu Propósito, mas a Soberania de Deus determinará o melhor resultado.

A diferença de quem tem fé e de quem não somente a tem, mas anda com Deus é que este último jamais viverá frustrado, pois confiante no caráter imutável de Deus. Só se confia em quem se conhece.

Quanto mais eu confio, mais eu o conheço, e quanto mais o conheço, mais eu me aproximo e encontro paz.

Muitos se machucaram nesse caminho, magoados com Deus, perderam a fé e a confiança, porque acreditaram e suas expectativas foram frustradas. Não compreenderam e não encontraram respostas em sua dor.

Para alguns, Deus revela naquele mesmo momento, outros estão tão machucados que taparam os ouvidos para ouvir e entender, e Deus decide usar o tempo para curar e ensinar. A verdade é que para tudo há uma resposta, mas nem todos estão prontos para ouvi-la, e por isso, às vezes Deus prefere não falar nada, apenas abraçar, consolar e amar. Nada poderá completar o vazio que deixamos em nossa vida quando nos afastamos de Deus.

Não tenha medo de acreditar. Acredite! Peça! Ore! E quando as coisas não acontecerem do jeito que você esperava, então simplesmente confie e agradeça, pois Deus é o maior interessado na sua real felicidade. Ele é bom e Ele nunca falha.


“Porque eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que esperais. Então me invocareis, e ireis, e orareis a mim, e eu vos ouvirei. E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração”. (Jeremias 29:11-13).


Leandro Dorneles

OS DIAS SÃO MAUS


De todos os lados as notícias não são boas. A violência está aumentando e tentando sufocar nossa capacidade de convívio social, de tolerância e de longanimidade. Vejo em meus próprios pensamentos as setas inflamadas que tentam contaminar tudo o que Jesus nos ensina sobre amor e piedade. Somos constantemente bombardeados por sentimentos de justiça própria, de ira, de vingança, de crueldade. Sim, os dias são maus.

Outro ponto que me assusta é a tal da ansiedade. A velocidade como as coisas mudam: tecnologia, moda, valores, conceitos, opiniões... assombram a nossa paz com um tornado de constantes mutações, tornando-nos tão ansiosos que já mal sabemos o que queremos, por quanto tempo queremos, se ainda queremos e, no final, para quê queremos. Sim, os dias são maus.

O mundo gira bruscamente. A globalização aproxima todas as coisas, boas e más, misturadas e quase indissociáveis, e nós estamos cada vez mais perdendo nossa identidade – se é que a tínhamos -, moral, espiritual, social, política e ideológica. Somos o que o momento e a maioria dita. Somos a notícia da vez, o que dá ibope, o que dá fama e dinheiro, o que chama atenção; o que tenta aparecer nas mídias sociais, que aguarda curtidas, comentários, compartilhamentos e visualizações, talvez, a espera de patrocínio ou de um convite para participar de uma entrevista ou sair numa revista; somos tudo aquilo que for chamado politicamente correto mesmo não sendo tão ou nada correto. Na verdade, nem sabemos mais quem somos. O que somos? Por que somos? Até quando seremos? O que é ser, num mundo onde tudo se torna relativo? Sim, os dias são maus.

Perdemos aos poucos e a cada dia mais nossa capacidade de perceber as coisas, de tão entranhados que estamos nelas. Já não distinguimos mais o real do virtual, o imaginário do factível, a história da estória, o que está abaixo do céu do que o que está acima dele. Perdemos-nos em sonhos e devaneios, entre a loucura e a lucidez, entre o santo e o profano. E o silêncio agora é oprimido pela ditadura das ideias proclamadas diariamente do alto dos telhados, em cada esquina e em cada canal de TV. Tornamos-nos seus escravos. Sim, os dias são maus.

Mas será que tudo isso já não era previsível?

“E o irmão entregará à morte o irmão, e o pai o filho; e os filhos se levantarão contra os pais, e os matarão” (Mateus 10:21).

“E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis, porque é necessário que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim. Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares. Mas todas estas coisas são o princípio de dores”. (Mateus 24:6-8)

“Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, Sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus [...]” (2 Tim 3:1-4).

Sim, os homens estão cheios de toda a iniquidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade; sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães; néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia (Rm 1:29-31).

E qual será o resultado de tudo isso?

“E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará” (Mateus 24:12).

E já não tem acontecido? Não estão se cumprindo todas estas palavras? Sim, os dias são maus.

Quem poderá nos trazer esperança? Quem conhece o futuro das coisas para delas nos falar? Quem já foi ao céu e de lá voltou para dizer? Ou quem de lá veio para anunciar o que está por vir? Quem o conhece? Quem já ouviu de sua boca?

E na medida em que Dele me aproximo, mais eu vejo, mais eu percebo, mais eu lamento e mais eu confirmo: sim, os dias são maus.

Que a misericórdia Dele me alcance e tudo o que há de mal em mim seja sacrificado, e que as minhas trevas sejam dissipadas por Sua luz que tudo alumia, tudo vê, tudo enxerga, tudo revela, a fim de que os meus dias nessa terra não sejam maus como aquilo que está por vir sobre toda a Terra.


Leandro Dorneles

CRISTIANISMO X HOMOSSEXUALIDADE: O QUE REALMENTE IMPORTA SABER


Após presenciar um debate sobre cristianismo e homossexualidade, um tema, deveras, muito polêmico e que exalta os ânimos de muitos, não poderia deixar de expressar o que considero o mais importante de todo esse debate e que quase nunca é abordado como o foco. Impossível, contudo, agradar a todos e não ficar sujeito a críticas, mas, calar-se quanto a um tema relevante como esse me parece mais danoso. O que escrevo será mais bem compreendido, acredito, por quem “vive” o cristianismo mais do que por aquele que simplesmente o observa e o analisa, como mero expectador e crítico, isso é fato. Mesmo assim escreverei.

Considero 4 pontos basilares da verdade acerca da homossexualidade segundo a mensagem de Deus revelada em Cristo que precisam ficar bem definidos, já que dificilmente observo meus irmãos em Cristo assim o fazer:

1. Não há diferença entre heterossexuais e homossexuais. A sexualidade de uma pessoa (seu comportamento imposto ou aprendido, ou ainda, sua genética se assim alguém desejar acreditar, não me importo) nunca foi ou será um critério de Deus para classificar o ser humano ou lhe atribuir qualquer adjetivo.

2. Deus não ama mais um heterossexual do que um homossexual. O amor de Deus é incondicional e independe do comportamento humano, seja qual for, do mais danoso ao mais louvável que possa ser.

3. A salvação de Deus não está focada no comportamento sexual do ser humano ou qualquer outro tipo de comportamento, genética, filosofia ou religião, mas a fé em Jesus Cristo e ao relacionamento que o homem desenvolve com Ele ao longo de sua vida.

4. Se o comportamento sexual de uma pessoa pode ser reprovável diante de Deus (sexo fora do casamento, adultério, fornicação, necrofilia, zoofilia, prostituição como profissão, etc., não estou fazendo uma lista ou criando uma hierarquia de pecados aqui), não é, de forma alguma, diferente de qualquer outro comportamento réprobo aos Seus olhos, como a mentira, a inveja, a cobiça, a falta de fé, o ódio, a violência, etc. Neste sentido não há hierarquia de pecados que possam determinar quais os “toleráveis” e quais os “imperdoáveis” para Deus, pois todo comportamento que foge da lição do Antigo Testamento e que é revelada de forma plena na mensagem de Cristo é suficiente para apresentar o homem reprovado diante de Deus e imerecido de Salvação. Essa classificação de tolerância só diz respeito ao ser humano como ser social e às suas limitações em conseguir conviver com determinados comportamentos alheios, a viver sob um minimum ético.

Assim exposto, se torna relevante explicar alguns pontos da mensagem de Cristo para depois encaixar o homem em Seus critérios, que nada têm a ver com sua sexualidade, embora esta faça parte de algo muito maior e comumente desprezado. Acompanhe-me pacientemente por um momento e de coração aberto. Você não é obrigado a aceitar ou a acreditar no que vou dizer, mas gostaria muito que você me desse a chance de levá-lo a uma reflexão mais profunda sobre esse assunto.

O cristianismo nunca fora uma proposta de nova religião dada por Jesus. Não nos moldes e na semântica que temos sobre tal conceito. A religião está ligada ao ritualismo e a dogmas que acabam por engessar qualquer relacionamento entre o homem e Deus. O objetivo do dogma deve ser o de “apontar” para a essência da vontade divina a respeito do tipo de relacionamento que Deus espera ter com o homem, mas nunca será um substituto a este relacionamento. Não nos relacionamos com dogmas, com regras, com leis, com cerimonialismo, com ritualismo. Relacionamos-nos com Aquele para onde tudo isso deve apontar: o nosso Deus.

O que Cristo trouxe foi uma oportunidade de o homem “tornar-se para Deus” (religar o homem com seu Criador, daí o termo religião). E religar o homem com Deus implica afirmar que o homem estava outrora ligado a Ele, mas que por algum motivo fora desligado. Uma leitura dos primeiros capítulos do livro de Gênesis é suficiente para um leitor sensato compreender essa fase da história cristã.

Antes, porém, de Cristo, Deus, a fim de revelar-nos nossa própria condição de insuficiência em dominar nossa vontade, nossos desejos e de obedecê-Lo ao ponto de “merecermos” Sua Salvação trouxe-nos a “Lei”, a positivação de Sua Vontade e de Suas leis morais, civis, éticas e regeneradoras, dizendo que aquele que conseguisse viver e comportar-se plenamente conforme a “letra” da Lei estaria justificado diante Dele tornado-se merecedor de um lugar ao Seu lado, por seus próprios esforços.

Contudo, o que a Lei deixou bem claro (e essa era a proposta desde o início) é que homem algum conseguiria viver a Lei na sua plenitude a tal ponto de por seu próprio mérito alcançar a regeneração e salvação de Deus. Eis o ponto chave! Não há um comportamento sequer capaz de justificar o homem diante do Criador ou de torná-lo merecedor de Sua Salvação, visto que jamais um ser humano conseguiu viver a Lei plenamente. O pecado é, portanto, a transgressão da Lei, por isso que todos pecamos e estamos separados de Deus.

Ora, se não há uma maneira de viver e de se comportar capaz de me justificar diante de Deus, como pode alguém alcançar a salvação? Se por obras (comportamento e virtude humanas) ninguém é justificado (porque todos erramos e tropeçamos em muitas coisas diariamente), como, pois, se dará a Salvação? Quem pode ser salvo? Cristo então nos responde, ao falar sobre o apego do homem as suas riquezas humanas e materiais:

“Com isso eles ficaram sobremaneira maravilhados, dizendo entre si: Quem pode, então, ser salvo? Jesus, fixando os olhos neles, respondeu: Para os homens é impossível, mas não para Deus; porque para Deus tudo é possível”. (Marcos 10:26-27)

A resposta que temos é que somente Deus é capaz de justificar o homem a fim de que este possa alcançar a Salvação. Logo, não há mérito humano, comportamento humano, esforço humano, virtude humana, moralidade humana, inteligência humana, ética humana ou santidade humana capaz de justificá-lo diante de Deus, senão a justificação que vem do próprio Deus. E como isso se dá? Cristo. A Obra de Cristo é condição sine qua non para a salvação do homem. E o que Cristo cobrou de nós para isso? Nada. Por isso é chamada Graça, pois que nos foi dado imerecidamente.

Isso quer dizer que pela Obra de Cristo todos já somos salvos? Não. Isso significa que pela Obra de Cristo foi dada a cada um a oportunidade de através Dele tornarmos a desenvolver um relacionamento com Deus capaz de gerar em nós uma transformação de dentro pra fora, que não nos justifica diante Dele, mas que se revela como um fruto de quem aprendeu a viver para Ele.

Logo, não é o meu comportamento humano aceitável ou não diante dos homens que me aproxima ou me afasta de Deus; não é mais a minha condição “naturalmente” pecaminosa que me torna aceitável ou não diante de Deus; é, pois, o meu desejo e capacidade de me relacionar com Ele de tal forma a viver nEle, por Ele e para Ele que me faz pertencer ou não a Ele.

A Lei divina impôs um comportamento que exigia do homem uma mudança de fora para dentro e isso nada resolveu o problema do pecado. Mas foi para que o homem tivesse essa consciência de sua condição miserável que Deus manifestou a Lei. Uma vez que o homem entende e reconhece sua incapacidade de tornar-se santo (reto aos olhos de Deus), é que o Pai então propicia o verdadeiro Caminho para que este O encontre e torne a viver com Ele: Cristo. Ele é a nossa justificação! Não é mais pelo que fazemos ou deixamos de fazer que Deus se aproxima ou se afasta de nós, atraindo-nos ou repelindo-nos para Si, é, antes, pelo que Cristo fez na Cruz que nos permite essa condição.

Essas verdades são suficientes para que possamos compreender a aceitar os 4 pontos da doutrina de Cristo acerca da homossexualidade acima elencados. Se vemos a homossexualidade como “comportamento” ou como “genética”, essa discussão, em verdade, nada nos importa, porque a corrupção do pecado no ser humano também se tornou algo genético. Somos geneticamente inclinados ao pecado; desde pequenos a desobediência, os sentimentos de egoísmo, de raiva, de inveja e de ciúmes (por exemplo) já são intrínsecos a nossa natureza. Logo, não é a declaração de que um comportamento ou maneira de ser seja de origem genética que justifica-nos continuar a ser como somos e agir como agimos. “Ser” homossexual ou heterossexual, ou “nascer” homossexual ou heterossexual não tem para Deus relevância alguma porque “todos” nós “somos” pecadores e “nascemos” sob o jugo do pecado. É, porém, a consciência do pecado que nos torna imputáveis diante de Deus, ou seja, “é quando o indivíduo, sem limitações de entendimento, possui a capacidade de entender o fato como ilícito e agir de acordo com este entendimento”.

Realmente, é loucura para a razão humana aceitar que Deus pede que o ser humano venha a viver de modo contrário a sua própria natureza e instintos. O que não enxergamos nisso é que habita em nós uma natureza que foi corrompida e contaminada pelo pecado, daí porque não podemos nos pautar por estes instintos naturais. É fácil perceber isso quando lembramos que o ódio, a beligerância, a inveja, o egoísmo e a arrogância (por exemplo) também fazem parte de nossa natureza e instintos naturais, mas nem por isso achamos certo vivê-los, antes, pelo contrário, sentimos a necessidade de dominar e frear tais instintos, ainda que naturais. Essa condição existe desde o pecado original, quando Caim, filho de Adão, sentiu desejo de matar seu irmão Abel.

“Então o Senhor perguntou a Caim: Por que te iraste? E por que está descaído o teu semblante? Porventura se procederes bem, não se há de levantar o teu semblante? E se não procederes bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo; mas sobre ele tu deves dominar”. (Gênesis 4:6-7 – ênfase minha)

Nem pela observância da natureza podemos pautar nossas ações como justificativa, visto que a Bíblia diz que toda a criação (inclusive os animais, pois antes da queda do homem não havia a “lei do mais forte” ou a “lei da sobrevivência” e todos os animais se alimentavam das ervas do campo, não uns dos outros) fora corrompida como consequência do pecado do homem e que esta mesma criação espera ardentemente a manifestação dos filhos de Deus, ou seja, espera a redenção do homem para que também ela alcance a sua redenção e torne ao seu status quo ante.

O que, de fato, importa-nos saber, é que Deus ama “da mesma forma” o homossexual e o heterossexual, porque todos são pecadores, mas saber também que por todos esses pecadores Cristo morreu e sacrificou-se, lhes dando igualdade de oportunidade para desenvolver um relacionamento com Deus através de Cristo e de Sua Obra na Cruz.

Se houver necessidade de mudar nossa maneira de ser e de viver, certamente não será a imposição social ou religiosa que nos propiciará tal mudança genuína, mas tão somente o caminhar dia-a-dia com Deus, permitindo que Ele nos molde e nos transforme a cada dia na Sua imagem e semelhança. Se, porém, quisermos viver com Deus desde que Ele se molde aos nossos desejos e valores, nada acharemos, senão um vazio eterno. Quem traz a mudança é Ele, mas só o faz quando reconhecemos a necessidade, confessamos, desejamos, pedimos e permitimos que Ele assim o faça. Falta-nos, muitas vezes, sensatez para admitir isso.

Esses dias um irmão me perguntou qual seria a minha reação e resposta se uma pessoa transexual chegasse a minha congregação e quisesse participar das reuniões, como eu chamaria essa pessoa, se como “ele” ou “ela”. Minha resposta foi: como ele ou ela se sentisse melhor. Certamente eu lhe diria o que creio a respeito disso e de que a mudança do seu corpo não lhe retira a característica com que Deus lha moldou; não me omitiria quanto ao que Deus me tem ensinado e revelado na Sua Palavra e iria orientar-lhe sobre o que diz as Escrituras a respeito disso; mas se eu entendo que somente Deus pode mudar o ser humano, porque tentaria eu fazer Seu papel e “impor-lhe” uma mudança externa, afastando-a cada vez mais da presença de Deus ao invés de atraí-la? Deus nos recebe como somos e como estamos, mas não se conforma em que desejemos viver assim, antes, espera que entreguemos nossas vidas a Ele de tal forma a não impormos restrições ao seu agir em nossas vidas, custe o que custar e doa o que doer, pois que buscamos a sua vontade, não mais a nossa. Este, porém, é um agir de Deus, não do homem.

A religião pode transformar superficialmente um homem, mas somente um relacionamento íntimo e pessoal com Deus pode transformar sua essência, uma mudança de dentro para fora. Como igreja e como pastores precisamos aprender essa lição que também só se dá por este mesmo caminhar com Deus.

O que a Bíblia me mostra é que o sexo é apenas um complemento de um instituto muito maior dado por Deus, o casamento, e este, por sua vez, reflete uma verdade espiritual muito maior do que o prazer: o relacionamento, a intimidade, a fidelidade e a cumplicidade entre criatura e Criador. Tudo isso tem uma razão espiritual de ser, o fato de Deus ter criado homem e mulher de forma distinta e com características distintas, e isso vai muito além das nossas conveniências sociais ou carências afetivas. O ser humano, porém, dominado pela necessidade de completude e de autojustificação contra seus próprios atos sempre tentou distorcer o sentido e a essência que Deus atribuiu a cada instituto da Sua criação para moldá-lo as suas necessidades pessoais; para consolidar esse pensamento o homem teve que retirar Deus do seu discurso e colocar o homem como centro do universo.

A positivação da Lei divina até tentou resguardar o homem de sua própria corrupção valorativa, trazendo-lhe princípios a serem observados, mas estes princípios só foram bem esclarecidos na vida de Cristo, quando por sua vida e relacionamento com Deus fora o único capaz de cumprir perfeitamente a Lei, não por um mandamento imposto, mas pela vontade de viver para o Pai.

A verdade é que, após a queda do homem, quando este desejou viver para si, toda a essência e significado espiritual de Seus Mandamentos passaram a ser desprezados e substituídos por uma visão racionalista da vida, tendo o homem como centro de todas as coisas. O homem quis completar-se em si mesmo, mas a Bíblia diz que em Cristo é que habita a plenitude de todas as coisas, ou seja, não há como completar-se fora Dele.

Se a homossexualidade, o sexo fora do casamento, o adultério ou a fornicação (por exemplo) são um comportamento (natural, imposto ou aprendido) réprobo e que contradiz a essência do significado atribuído por Deus para a vida sexual humana dentro do instituto do casamento, tudo bem, como cristão assim eu também creio, mas devemos lembrar que tal comportamento não é mais reprovável do que todos os demais comportamentos que a Lei divina se nos impõe como desviados da vontade de Deus. O que podemos ter de diferente em todos esses comportamentos humanos condenáveis pela Lei Divina são suas consequências terrenas, pois, no plano da salvação, “qualquer desses comportamentos nos condenam e afastam de Deus”, da mesma forma que nossas ações repercutem de formas diferentes nas nossas leis (uns são julgados na esfera cível, outros na esfera penal, cada um com certa medida de pena e sanção aplicáveis), também o pecado (comportamento que se desvia do propósito de Deus para o homem) gera para nós consequências diversas nesse mundo.

Mas se a Salvação dada por Cristo nos perdoa todos os pecados, significa dizer que perdoa todo o comportamento humano passado, presente e futuro, “quando” o ser humano passa a relacionar-se com Deus e a viver para Ele. Então, todo esse comportamento réprobo passa a perder o domínio sobre nossa forma de viver e deixa de ser parâmetro de salvação, visto que a caminhada com Deus gera em nós repulsa por agir e viver de modo contrário ao que Ele espera de nós. Não mais é o medo da reprovação ou da condenação que nos motiva, mas a ânsia de agradá-Lo porque O amamos e queremos estar perto Dele.

O caminhar corretamente e o desviar-se de todo o comportamento reprovável passa a ser uma “consequência” da uma vida com Deus, mas “nunca” a sua causa.

Portanto, quero lhe dizer que Deus não está preocupado com sua orientação sexual, mais do que Ele está preocupado em saber se você aproveitará ou não a oportunidade que Ele lhe deu de voltar-se para Ele. Se você aceitar esse convite gratuito, então todo e qualquer comportamento que você tem, vive ou convive passará a ser regido por Ele, permitindo que Ele faça em você as mudanças que Ele julgar pertinentes, no Seu tempo e do Seu modo.

Todos somos pecadores e juntamente necessitamos da justificação de Cristo. O amor de Deus é imutável, mesmo para aquele que não acredita Nele. É a escolha que fazemos em relação à oportunidade que Ele nos deu que fará a diferença Naquele Grande Dia e que será fator separador entre aqueles que se assentarão na mesa com o Rei e aqueles que serão expulsos de Sua Presença, por terem desprezado a oportunidade gratuitamente dada, mas que custou a Jesus um alto preço.

O Amor de Deus não coaduna com o pecado e nem jamais o fará, pois mesmo Deus lhe amando você viverá afastado Dele se recusar esse Amor manifestado na pessoa e no sacrifício de Cristo. Jesus é a maior expressão do Amor de Deus por todos nós. Se o buscar de todo o coração O encontrará e o tipo de relacionamento que você desenvolver com Ele aqui nessa vida será o mesmo após a morte. Da mesma forma, se viver afastado Dele e da Vida que Ele gratuitamente te oferece, assim também será na eternidade.

“Mas agora, sem lei, tem-se manifestado a justiça de Deus, que é atestada pela lei e pelos profetas; isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos os que crêem; pois não há distinção. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs como propiciação, pela fé, no seu sangue, para demonstração da sua justiça por ter ele na sua paciência, deixado de lado os delitos outrora cometidos; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e também justificador daquele que tem fé em Jesus”. (Romanos 3:21:26).

Que Deus te abençoe e encha o teu coração com o Seu Amor e a Sua Presença.


Leandro Dorneles